17/12/2014

O que está destruindo a igreja batista? (Parte 4)

O apóstolo Paulo orienta que ninguém despreze a mocidade de Timóteo. Isso indica que provavelmente existiam outros pastores na igreja de Timóteo talvez mais velhos. É oportuno recordar que na sociedade antiga a idade era ateibuto de hierarquia social e não somente familiar. Paulo alerta para que "ninguém despreze sua mocidade" apenas pelo fator "mocidade" ou "falta de experiência".

Já virou costume ouvir de alguns pastores que "tenho tantos anos de ministério bem sucedido" ou "tenho experiência que você não tem" ou ainda "devo ser mais valorizado porque sou o presidente da igreja". Sinceramente, estes pastores não ouviram o conselho de Paulo. Posso dizer ainda que "esquecem" que nosso Senhor Jesus Cristo teve somente 3 (três) anos de ministério terreno. Talvez o curriculo dos que se gabam de tempo de ministério seja sinal de "um grande ministério". Talvez não.

Na Bíblia sagrada não há hierarquia de pastores, alguns encontram isso em livros pseudoepígrafos ou forçando a barra de judaizar a igreja como culto levítico, mas não é assim que nos ensina o Novo Testamento.

Depois de algum tempo as pessoas se acostumam com um posto a ponto de esquecer que este posto não nos pertence. Isso ocorre em muitas igrejas batistas. Talvez o maior culpado disso seja a generalização do ministério de tempo integral.

Uma vez alguém disse que o pastor "precisa se dedicar em tempo integral, pois trabalhando fora está sujeito a escândalos". Claro que muitos não endossariam essa frase publicamente mas concordariam com ela. Ora, se a vida cristã é integral como é possível ser um bom cristão protegido por um gabinete? Não faz sentido. Ministério Integral não é carreira como alguns pensam é uma opção de
cada sujeito. Nenhuma igreja tem direito de exigir tempo integral pois não é ordenado na Bíblia é, pelo menos, indicado mas não ordenado.

Mas muitas igrejas exigem tempo integral. Isso gerou problemas. Um dos maiores problemas é o culto à personalidade na igreja. Pastores devem ser respeitados como qualquer irmão assim deve ser também, mas o culto à personalidade incitado pela obrigatoriedade do ministério integral tem feito uns mais "dignos" do que os outros. Isso é contra a doutrina batista.

Um exemplo claro. É considerado normal que um pastor presidente ganhe multiplas vezes mais o salário de seus auxiliares só porque é presidente. Mesmo que os auxiliares trabalhem muito mais do que o presidente isso não é levado em conta. Aliás, a presidência é um cargo estatutário e que pode ser ocupado por qualquer irmão. Nós temos o costume do pastor ser presidente e podemos cultivar o costume até o ponto em que ele não interfira com os ensinos bíblicos.

 Quando Paulo diz em Timóteo 5 que os que governam devem receber duplicada honra não refere-se a pagamento como querem alguns buscando etimologia no grego. Na verdade, o versiculo primeiro do capítulo 5 diz em que situação é aplicada essa duplicada honra. Os pastores devem receber duplicada honra quando forem admoestados. Isso não significa que não podem ser admoestados, mas que devem ser admoestados com respeito. É o que, biblicamente, faço aqui.

Considerar experiência pessoal em gabinete pastoral melhor que a experiência de um irmão que trabalha e evangeliza é uma temeridade. Isso deve ser dito. Esse tipo de pensamento tem sido nocivo aos batistas. Um exemplo prático dessa nocividade é o territorialismo de alguns pastores de tempo integral. Alguns acabam vendo em outros pastores um concorrente.

Por exemplo, preferem construir templos imensos para "seu rebanho" do que espalhar pequenas igrejas por toda a cidade. É muito melhor termos várias igrejas com mais de um pastor pregando o Evangelho do que termos uma igreja que se fecha no culto à personalidade. Muitas igrejas pequenas não podem ter pastores com direito a carro, gabinete e bom salário. Isso é coisa de grandes igrejas. Por outro lado, seria muito mais produtivo se tivéssemos mais igrejas e menores estruturas. Uma variante das megaigrejas são as igreja "fiéis ao pacto das igrejas batistas", tal pacto diz que não deve haver uma igreja batista próxima a outra. Usam esse pacto escrito a décadas atrás quando um bairro tinha a população de um quarteirão de hoje. É um problema de desajuste cronológico da realidade.

Voltando a Paulo, lembremos que ele era fazedor de tendas. Ele poderia e tinha o direito de receber auxilio financeiro da igreja, mas jamais fez disso sua bandeira. Paulo aceitava o ministério integral, mas não queria "ser pesado" por saber da inviabilidade do mesmo em algumas situações.

Com tal espírito de concorrência não podemos sobreviver como igreja. Na Europa já existem igrejas extintas, algumas se recuperam recentemente. Não tenho acesso a documentos sobre o assunto, mas é possível deduzir que sua queda pode ter um componente de culto à personalidade. Não devemos deixar que tal coisa ocorra no Brasil.

Como vimos, tornar o pastor alguém acima da membresia contrariando nossa doutrina não produz um bom resultado. É importante que voltemos a ser igrejas de muitos pastores, diáconos e todos ovelhas, pois do contrário nos tornamos em meras organizaçõe e esvaziamos o corpo de Cristo. Que ninguém despreze nossa mocidade