02/12/2014

O que está destruindo a igreja batista? (Parte 3)

A igreja batista não é um conglomerado de igrejas. Cada igreja é autônoma e democrática. Num período da história dos batistas, alguns proselitistas pentecostais quiseram aproveitar essa democracia contra a própria igreja batista. Com isso surgiu uma união para busca de soluções defensivas da doutrina. Algumas das soluções foram a longo prazo o pior para a igreja batista. Essas soluções ruins tinham a motivação inicial de disciplinar problemas através de órgãos para eclesiásticos. Isso foi um tiro no pé.

Enquanto tais organizações estavam sob orientação de pastores tradicionais ainda existia algum respeito às doutrinas, mas já se ensaiava a politicagem. Não era raro que alguns funcionários, crentes, esperassem a ausência do chefe, numa viagem por exemplo, para procrastinar a vontade. Mas quando o chefe aparecia a demonstração de pró atividade era tremenda. Um ambiente assim não pode acabar bem, pois é dependente de líderes e não de consciência dos religiosos para com Deus.

Um dos primeiros sinais foi a criação de ordens, especialmente ordem de pastores. Só a existência de tais ordens é um afronte aos princípios e doutrinas batistas. Historicamente os batistas surgem com um principio contrário a qualquer ordem para eclesiástica. As ordens são por definição um grêmio de iniciados. Esses grêmios de iniciados eram comuns antes da Reforma e depois dela.

Especialmente nos grêmios religiosos entendia-se que os agremiados tinham uma autoridade ou "intimidade com Deus" maior do que o povo laico. Os batistas são contrários a essa ideia de laicato e clero, pois Deus não faz acepção de pessoas. Também não existe hierarquia entre crentes na base doutrinária batista. Entretanto, as "ordens" criam vários cleros de pastores, músicos, diáconos etc. Ferindo os princípios da denominação.

Continuando. Com a morte dos líderes mais conservadores, tudo virou bagunça, pois se funcionários serviam para agradar o chefe, qualquer chefe seria agradado sem princípio nenhum. Mas ainda outro fato foi concomitante a isso que aumentou a bola de neve: a criação do conceito de ministério como departamento e a desvalorização progressiva dos diáconos.

Primeiro, ministério não é departamento como alguns imaginam. Ministério é serviço público a Deus. Qualquer serviço público orientado para a obra de Deus, dentro ou fora da igreja, inclusive um blog se quisermos ser mais moderninhos. Não vamos confundir serviço público com atividade estatal, mas como atividade que é realizada publicamente, só isso.

Além do ministério ser serviço público esse serviço é exercido por ministros. Os ministros, ou oficiais para usar um termo mais antigo, são os pastores e diáconos. Sendo a única diferença entre pastores e diáconos que os primeiros são os coordenadores do trabalho e os diáconos os auxiliares.

Com o surgimento de "ordens" os diáconos deixaram de se entender como auxiliares e entenderam-se como "iniciados" dentro da igreja. Isso também aconteceu com os pastores que deixaram de se entender como coordenadores para se gabar de serem "líderes". Isso também coincide com a ascenção da visão empresarial de igreja pelos papas da administração eclesiástica.

Juntando essa visão empresarial de igreja, as ordens de iniciados, e uma certa resistência do diaconato e ao diaconato, inventaram uma modificação no conceito de ministério. Antes quem orientava os jovens, só para um exemplo, era um diácono ou o pastor, agora, passou a ser um ministro de jovens que é um sujeito indefinido, mas útil administrativamente. É como transformar faxineiro em auxiliar de serviços gerais para que possam mandar o cara fazer o que a chefia desejar.

Além do esvaziamento do diaconato ocorreu o esvaziamento do ministério pastoral com o surgimento das mega igrejas. Nas mega igrejas passou a ocorrer algo contraditório. Se o diácono era o auxiliar do pastor, mas ter diáconos era um "inconveniente" especialmente após as ordens diaconais, a solução foi criar uma figura híbrida, o "pastor auxiliar".

Com a criação política do pastor auxiliar, uma das funções naturais de todo pastor que é presidir decisões da igreja virou atributo exclusivo do "pastor chefe" que adotou o nome mais bonitinho de "pastor presidente" e gosta de ser chamado de "líder" como se líder não fosse chefe. Chega a ser tragicômico quando passamos por uma igreja e vemos em sua fachada o nome do "pastor presidente".

Voltando aos ministros que substituíram politicamente os diáconos vemos que dentre esses ministros temos o ministro de música, educação religiosa e outros em geral. Todos deveriam ser diáconos, mas isso seria inconveniente administrativamente e politicamente. Pessoas foram aceitando cargos e ao mesmo tempo sendo preteridas como é comum a toda hierarquia.

O mais engraçado é que a hierarquia existe, mas fazem uma ginástica lógica sem fim para dizer que não existe hierarquia. Uma das provas incontestáveis da hierarquia é o salário do pastor presidente poder ser até 20 vezes maior que o de um pastor auxiliar, ou mais, mesmo que o auxiliar trabalhe muito mais, logo é uma retribuição hierárquica. Chegam até a dizer que a presidência justifica isso, mas não dizem que tomaram a função presidencial de outros em benefício próprio.

Nessa situação gera-se desprezo e ressentimento e muitos já querem "ordens" de músicos e educadores religiosos. Ou seja, ao invés de resolver o problema querem aumentar o problema e muitas vezes por pura ingenuidade, outros com desejos escusos mesmo. Todas as tentativas semelhantes só prejudicaram os relacionamentos eclesiásticos criando os famigerados iniciados ou "ungidos" que contrariam a doutrina batista e a Bíblia.

Qual seria a solução então? Primeiro, não criar nenhuma nova ordem seja do que for. Segundo, extinguir as existentes pois não podemos extinguir nossa doutrina, história e princípios em nome de uma invenção politiqueira que suga as forças da denominação. Isso é o mais coerente e conveniente: voltar às origens. Tudo dava certo antes mas agora, todos querem fazer currículo e fechar uma rede de relacionamento que favoreça uma carreira ministerial.

O mais preocupante: os adeptos a esses procedimentos estão de tal maneira alienados que podem pensar que eu estou contra a igreja batista. Podem até se mover em suas "ordens" para satisfazer um falso principio de colaboração a partir de ordens. Esquecem que ninguém precisa de juntas ou ordens para cooperar em prol do Reino de Deus.

Se continuar do jeito que está, em pouco tempo não existirão mais batistas. Um racha denominacional será a única opção aceitável pois o que temos nos dias atuais, em muitos casos, não pode mais ser considerado igreja batista. Ou rachamos ou a igreja se corrompe de vez. Pode parecer radicalismo, mas quem disse que batistas nunca foram radicais?

É melhor ser um radical fiel às Escrituras que um "moderado" conformado com a politicagem que mina as bases morais e doutrinárias da igreja batista. Sem ordens ou associações passamos bem, mas sem firmeza e coerência com a doutrina bíblica vamos de mal a pior.