30/09/2012

Responsáveis ou Auxiliares?

Uma coisa muito engraçada nas igrejas é o que denominam de ministérios auxiliares. Os ministérios auxiliares foram criados para fazer trabalho pastoral, seja porque o pastor não pode fazer sozinho, seja porque julga tal tarefa menor, ou mesmo por pensar que pastorear crianças, jovens e adolescentes, idosos, cuidar da educação religiosa são um nível inferior de serviço eclesiástico, ou mesmo por questão de competência pessoal aliada a tudo isso.

Educadores Religiosos e Pastores "auxiliares" são muitas vezes vistos como obreiros de segunda categoria, sendo responsabilizados pelos fracassos na gestão do ministérios auxiliar, mesmo que os motivos do fracasso  sejam as ordens pastorais em despropósito. Ou seja, enquanto dá certo o obreiro é apenas auxiliar, quando alguma coisa dá errado, mesmo que não seja sua culpa, o obreiro é responsável pelo ministério. Isso é um contradição cruel e diria até desumana e anticristã.

Se você é, ou foi, um obreiro auxiliar que não se enquadre nessa definição antibíblica, sabe do que estou falando. Na igreja batista temos apenas diáconos e pastores, segundo nossa doutrina, não há outro tipo de organização de indivíduos, mas em algumas igrejas, criou-se os ministérios auxiliares para se livrar da influencia do diaconato. 

Ora, se o diácono é um oficial da igreja, equiparado ao pastor, aqueles que gostam de mandar tinham que corromper essa estrutura, pois era difícil administrar oficiais de mesmo nível, era necessário, na visão dos mandantes, criar uma hierarquia. Essa hierarquia é negada de pé junto, mas na prática é o que acontece de fato.

Com isso, servos de Deus com a mesma formação, e unção, como todos, tornaram-se suporte, não da igreja, mas do ministério de seus empregadores que podiam dispor deles no momento que quisessem, coisa que era inviável fazer com o diaconato. Além disso, ocorreu uma segregação dos diáconos a um plano de carregadores de bandeja (sem pejoração apenas figura de linguagem), como se servir a ceia fosse a única tarefa do diácono, além da beneficência. Assim evitava-se a proliferação de pregadores que poderiam se destacar mais do que o pastor presidente.

Talvez você pense que sou inimigo dos pastores, ou dos diáconos ou até dos ministérios auxiliares. Claro que não! Precisamos é fazer as coisas voltarem a seus lugares. Como batistas, precisamos seguir os princípios bíblicos e não ideias administrativas de corporação. Estamos perdendo a diaconia de fato num processo de substituição de tarefas e centralização de poder na igreja de Cristo, isto digo, me referindo à igreja batista que pelo menos nominalmente seria democrática e não oligárquica.

Diácono não é só para servir ceia ou fazer beneficência. Ministros auxiliares são, na verdade, diáconos que podem ser descartados como meros auxiliares por aqueles que assim os instituem. Os oficiais da igreja são dois: diáconos e pastores, ministros auxiliares são também diáconos e não ministro disso, ou ministro daquilo. Além disso, diaconato e pastorado são faces do ministério pastoral e não ministérios diferentes. É necessário que os pastores de nossos dias abandonem seus pedestais e reconheçam essa distorção presente na igreja batista atualmente.

Tendo em vista que diáconos e ministros auxiliares são a mesma coisa, e também, considerando que a denominação "ministro auxiliar" é uma corruptela antibíblica e até mesmo hierarquizante numa igreja que, sendo neotestamentária, não deveria ser organizada em hierarquia, vejamos a função desse obreiro que doravante chamaremos apenas de diácono. Isso mesmo, ambos são diáconos, não há separação especialmente por demérito.

O termo diácono vem do grego. Encontramos esse termo em 1 Timóteo 3 onde os διακονοι são tratados e igualados em responsabilidades e qualidades aos pastores. Quanto à etimologia da palavra, diácono é aquele que serve. Servir é o objetivo de todo o crente, mas estes especificamente são aqueles que auxiliam no ministério pastoral, que aliás não significa o ministério DO pastor, mas sim o ministério DE pastor, parece uma sutileza mas é significante. Quando dizemos que o ministério é DO pastor centralizamos em um indivíduo algo que é um dom funcional da igreja, ou seja, o ministério é DE pastor pois compreende a todos que tenham o mesmo dom na igreja local, seja como pastores, que se dedicam mais intensamente a esse ministério inclusive com especialização, ou como diáconos que possuem o mesmo dom mas que se mantém em posição de reforço ao ministério, não propriamente auxiliar na acepção administrativa do termo.

Lembremos também que na igreja de Timóteo não existia apenas um pastor, ao contrário, o texto bíblico indica que seriam vários pois o apóstolo aconselha Timóteo para que "ninguém despreze a sua mocidade" num ambiente onde os homem mais maduros tinham função de orientação social relevante.

Voltando até Atos, percebemos que os diáconos foram instituídos para que os apóstolos se dedicassem mais à pregação do Evangelho do que à assistência beneficente aos órfãos e viúvas. Alguns pensam que essa citação à beneficência seria um limitador da ação dos diáconos, mas essa interpretação é temerária e foi o que gerou a distorção que ora discorremos. Observe que os diáconos são instituídos pelos apóstolos, aqueles que foram as testemunhas oculares de Jesus, que foram seus embaixadores na tarefa da evangelização do mundo e que, os apóstolos, tinham um ministério diferenciado e único que referencia ao ministério pastoral mas é ministério apostólico, reservado somente aos doze e a Matias. Os apóstolos usam o pronome pessoal "nós", e estes "nós" eram somente os doze como vemos no versículo 2 de Atos 6, portanto, a separação do trabalho de beneficência referia-se exclusivamente aos doze, a não ser é claro, que algum pastor se julgue o sucessor do ministério apostólico, porém essa ideia ainda não está claramente assumida, se é que existe, entre os batistas.

Podemos ir mais além e ver que Estevão e Filipe, dentre estes primeiros diáconos, foram grandes pregadores da Palavra de Deus, praticamente exercendo o ministério pastoral. Estevão pregava com tanto poder que foi apedrejado pelos impios, Filipe foi conduzido pelo Espírito Santo a pregar para o tesoureiro da Rainha Candace, se isso não é ministério pastoral é o que? Aos apóstolos cabia estabelecer os alicerces da fé cristã, da doutrina bíblica, por isso eles deveriam ter uma dedicação singular à oração e ao ensino, diferenciando-se de todos os crentes que viriam posteriormente. Pastores não podem hierarquizar outros ministros com desculpa de cuidar do ensino e da oração pois nenhum pastor faz parte dos doze apóstolos de Jesus, portanto arrogando-se de função que não é sua alguns pastores diminuem outros conservos. É irônico até que muitos pastores que agem com essa visão hierarquizada, colocando-se no lugar dos apóstolos, critiquem aqueles que criam igrejas neo-pentecostais e se intitulem apóstolos. Ora, do que adianta um pastor não se intitular apóstolo mas agir como tal?

Enfim, se não há hierarquia na igreja batista, sejamos coerentes. Se algum pastor é tão aferrado a hierarquia que deseja igualar-se aos apóstolos, deixe de ser batista. Precisamos é de mais coerência com nossos princípios e doutrinas fundamentais, de voltarmo-nos mais para a Bíblia do que para princípios da ciência da administração, e de menos vaidade em nossos arraiais para que não ouçamos mais certos ditados como esses que circulam como gracejo nas conversas de alguns pastores autoritários dizendo "resisti ao DIÁCONO que ele fugirá de vós" pois além de blasfêmia isso é soberba e vaidade. No juízo final toda vaidade será abatida. Que Deus nos oriente a servi-lo melhor.

Bibliografia:

Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Atos 6 e 1 Timóteo 3.