05/08/2012

Delegando tarefas na igreja?

Estudei o capítulo 3 de Neemias hoje na Escola Dominical. O material de estudo trazia várias considerações acerca de princípios de liderança, especialmente concernentes a prática da delegação de tarefas. Bem, se Neemias tivesse delegado tarefas, como autoridade, veríamos se confirmar a ideia de pastorado executivo que "delega atribuições" aos membros "liderados" da igreja. Desconfiei disso e fui examinar o texto com mais vagar. Vejamos o que nos diz então o capítulo 3 de Neemias.

Neemias não "delegou" funções ou tarefas a ninguém. Basta ler o texto bíblico sem o preconceito administrativista que permeia as relações de governo nas igrejas evangélicas na atualidade. Muitos pastores pensam que pastorear é administrar, como um executivo, e com isso fazem interpretações equivocadas. Lendo o texto de Neemias até o capítulo 3 vemos a seguinte sequencia:

  • Neemias recebe notícias da situação de ruinas de Jerusalém
  • Neemias se entristece, ora a Deus e pede ao rei que possa restaurar Jerusalém
  • O rei envia Neemias como governador com data de retorno prevista
  • Neemias faz uma inspeção ao redor de Jerusalém à noite para reconhecer os estragos
  • Neemias se reúne com o povo de Israel e conscientiza-os de situação comum do povo
  • O povo se propõe e começa a reconstruir por disposição própria

Observe que Neemias pregou para o povo conclamando-os a uma ação, e atenção: Neemias não delegou nada a ninguém, simplesmente o povo se dispôs a trabalhar e começou a fazê-lo. Neemias falou ao coração do povo de Deus para que se fortalecessem sabendo que tinham um apoio pastoral. Ao se sentirem apoiados e com um objetivo comum, não um objetivo de um líder apenas, o povo se reuniu e fez a vontade de Deus voluntariamente. Precisamos de líderes que façam  como Neemias, que apoiem os que desejam fazer a vontade de Deus, pois o próprio Deus é quem delega a obra. Não há até Neemias 3 uma afirmação de delegação que só ocorre em Neemias 4 onde o servo de Deus se coloca em igualdade de condição com todos para cuidar da segurança de Israel, isto ainda não é delegação, é participação.

Em Neemias 5 há uma reclamação do povo que é julgada por Neemias. Não podemos confundir julgamento com delegação de liderança. Neemias repreende os opressores das autoridades judaicas que escravizavam o povo e os exploravam. Para resolver o problema, Neemias perdoa as dívidas que os pobres tinham com a administração persa, e pede que as autoridades sigam seu exemplo, firmando um juramento na presença do Senhor. Neemias também não foi uma carga para o povo, pois não exigia seus direitos de governador nomeado pelo rei, porque temia a Deus. Neemias não delegava, ao contrário, ele fazia junto.

Fica portanto, evidente que estamos contaminados por um executivismo pastoral, pois conseguimos inserir princípios de administração onde há princípios de humildade, igualdade, participação e temor a Deus. Não precisamos rever a Bíblia nem mesmo a doutrina batista, mas precisamos rever interpretações eivadas de teorias empresariais que não condizem com a natureza do corpo de Cristo.

Amanhã trataremos dos capítulos finais de Neemias. Deus nos abençoe!


Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo
Casado com Lucimar