09/07/2012

Protestantes de Missão ou de Corporação

João Batista - Brueghel, Pieter (1601)
Os batistas são classificados como protestantes de missão, o que é uma classificação apropriada, entretanto, tal classificação encontra-se ameaçada por um tipo de governo dinástico que já viceja em nossos arraiais denominacionais.

Entre igrejas tradicionais, pentecostais ou neopentecostais, já é comum vermos igrejas sendo distribuídas entre filhos, sobrinhos, esposas, netos e outros parentes. Vocacionados, mesmo com formação teológica, que não tenham um vinculo de parentesco com um “clero dominante” são geralmente deixados de lado. A única chance da maioria dos “vocacionados sem berço” é aderir politicamente a algum grupo. Muitas de nossas associações são o lugar deste vinculo político, ou melhor, partidarista.

Para verificar o que digo, faça um inventário dos pastores mais poderosos e veja quantos familiares seus são vocacionados e “bem colocados”. Se você for um pouco mais informado poderá notar isso em sua própria vizinhança eclesiástica. Esse tipo de dinastia ou nepotismo de famílias clericais pode ser interessante em algumas denominações onde não é enfatizada a democracia, mas isso é um problema preocupante e uma ameaça aos princípios batistas de democracia e até mesmo do sacerdócio universal dos crentes, pois se somos democráticos porque o nepotismo (?) e se todos somos sacerdotes em Cristo, porque gerar uma espécie de linhagem sacerdotal?

Vejo com cuidado a campanha “Todos somos vocacionados”, mesmo que a afirmação seja verdadeira. Antigamente a vocação era atrelada a um chamado específico para o pastorado, especialmente valorizando os seminaristas que seriam os futuros pastores. Houve um incremento na formação de pastores, existem muitos bacharéis em teologia hoje em dia, mas não houve um incremento equivalente nas igrejas batistas. Qual o motivo desta incoerência.

Muitos pastores, com medo de perder a membresia e o sustento de suas igrejas, invocavam o pacto das igrejas batistas, de meados do século passado, em que se definia que em cada bairro poderia haver somente uma igreja batista. Imagino que os pensantes desse pacto não imaginavam a explosão demográfica atual, mas outros posteriores, mesmo percebendo a mudança no número da população, não viram isso como uma oportunidade de plantar mais igrejas mas sim de crescer uma única igreja local.

Com o crescimento das igrejas locais gerou-se o transito de interesses diversos, tanto no campo eclesiástico quanto no campo social. Chegou-se ao ponto de membros mais influentes terem proeminência entre os irmãos mais pobres. Claro que tal deferência era revertida em exaltação pastoral e, essa exaltação pastoral, produziu a autoridade de mando dentro das igrejas. O pastor deixava de ser o guia, condutor do rebanho, e tornava-se o “executivo da igreja”.

Pode-se dizer também que o termo “oficiais da igreja”, que referiam-se a pastores e diáconos como funções básicas relatadas no Novo Testamento, acabou ganhando a conotação coerente com o termo oficial no contexto militar, haja visto que passamos por um regime militar e que muitos dos pastores do períodos tinham origem nesse tipo de organização.

De tudo isso surge a hierarquização da igreja batista e como conseqüência mais atual o dinastismo de algumas famílias clericais. Observemos entretanto, que uma família se dedicar ao ministério não é ruim, o que espanta é a grande freqüência dessa incidência ou também das indicações políticas em detrimento dos “vocacionados sem berço”. Não é raro que numa sucessão pastoral um nome levantado pela igreja seja substituído por outro indicado pelo pastor interino e geralmente o indicado é eleito, seja por que ele obtém mais oportunidades de contato com a igreja do que os outros candidatos ou mesmo por competência.

Voltando a idéia de que todos somos vocacionados, pensemos em que interessa a uma oligarquia dinástica mudar o conceito de vocação nestas alturas do campeonato.

Ora, se a vocação de um seminarista é coisa banalizada, logo o que se torna mais importante é a hierarquia que fundamenta a autoridade dos sujeitos mandantes. Claro que não devemos desprezar as diferentes vocações ou dons, mas também não devemos esvaziar por completo o valor de uma vocação teológica.

Esvaziar o valor de uma vocação teológica só interessa para aqueles que sentem-se ameaçados em seus postos por outros igualmente capacitados. Nem todos os vocacionados são habilitados teologicamente, e os representantes das dinastias sabem disso, portanto é interessante para a manutenção das dinastias nepotistas e partidárias um esvaziamento da noção de capacidade de um sujeito formado em seminário teológico.

Até mesmo o reconhecimento dos cursos de teologia contribuiu para isso, pois se o sujeito pode ter seu curso livre reconhecido de alguma forma já realiza seu objetivo, não podendo, portanto, reclamar de não ser consagrado. Isso é muito útil para a perpetuação das dinastias, fortalecimento das corporações, porém pernicioso para nossa característica marcante de religião missionária.

Uma religião missionária por excelência não pode ser dinástica ou política na escolha de seus pastores. Se assim fazemos estamos condenando nossa denominação ao esfriamento e ao abandono que ocorreu nas igrejas de alguns países da Europa. O dinastismo evangélico é uma ameaça à própria pregação do evangelho.

O próprio Senhor Jesus Cristo não criou dinastia, vemos que seu irmão Tiago é contado igualmente entre os apóstolos. O próprio apóstolo Pedro foi tomado a total revelia de sua memória como primeiro papa pela igreja romana na tentativa de estabelecer uma linha sucessória. Será que estamos seguindo o mesmo caminho do catolicismo imperial?

Quero chamar sua atenção com este texto para essa realidade que nos cerca e que é meio que ofuscada em nosso meio. Provavelmente alguns vão me acusar de qualquer coisa para desmerecer meus argumentos, é assim que os falsos profetas agem. Entretanto lembremos que não podemos ficar a mercê de dinastias ou de partidos denominacionais que se fecham como corporação e ao mesmo tempo estrangulam verdadeiras vocações.

Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo
Casado com Lucimar