22/06/2012

Irai-vos e não pequeis

Temos uma longa história de guerra na humanidade. Nós brasileiros, apesar de pacíficos, temos o sangue guerreiro do índios bravios, dos negros das savanas e dos portugueses, que também não eram bobos, pois contribuíram para expulsar os mouros da Península Ibérica. E olha que os árabes são bons de briga.

Religiosamente também temos uma cultura de luta vinda das "demandas espirituais" que um feiticeiro tinha contra o outro que mistura um pouco de catolicismo, religiões afro e pajelança. É claro que nós, protestantes  e evangélicos, com um pouco do espírito capitalista em nossa origem também somos um pouco brigões. Aliás, é dessa característica do povo brasileiro, de lutar espiritualmente, que muitos falsos profetas se aproveitam gerando "exércitos de Deus" que contribuem para a organização com muita soma de dinheiro.

Ah, você diria, "eu não ouço pregações desse tipo nem me sinto a vontade com ideias de disputa". Portanto isso não teria nada a ver contigo, não é mesmo? Ao contrário, tem a ver conosco, pois querendo ou não participamos da mesma cultura, que diria até, não é só brasileira é humana.

Todo ser humano é lutador e a luta traz ansiedade. Estava meditando em Salmos 4 quando observei melhor dois versículos bíblicos que tratam exatamente do espírito de luta e da ansiedade que nos assola:


Irai-vos e não pequeis; consultai com o vosso coração em vosso leito, e calai-vos. Salmos 4.4
Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira; nem deis lugar ao Diabo. Efésios 4:26-27

Este texto veio fortalecer minha convicção, ainda mais embasada, de que pela oração podemos vencer a ansiedade da vida. Se acontece algo ruim conosco devemos orar por isso, mas não numa batalha espiritual. Devemos orar somente pedindo que Deus seja glorificado naquele problema. Só isso.

Foi assim que Jesus orou no Getsemani, foi assim também que Jó orou e foi restaurado por Deus. Os dois exemplos bastam, mas teríamos muitos outros.

Pensamos que orar e não pecar é apenas não revidar o mal, mas preocupar-se do mal também é pecado. Se nos iramos e remoemos aquela situação pensando como resolve-la, até mesmo pedindo todo dia a Deus por esse problema, estamos fazendo duas coisas, primeiro, falando demais pois Deus nos orienta nos salmos para que abandonemos os problemas malignos nas mãos de Deus quando nos deitamos, para que não se ponha o sol sob nossa ira, segundo, estamos também dando lugar ao Diabo pois ficamos ansiosos e prontos para a batalha que é o que o Diabo gosta, ao passo que se confiamos plenamente no poder de Deus pedimos que Ele seja glorificado em nosso problema e sabemos que Ele é poderoso para cuidar de tudo.

Não pense que estou falando porque isso para mim foi fácil, ao contrário, é um processo terapêutico e espiritual descobrir que nossa disposição de lutar, nosso estado de alerta, nos deixa ansiosos demais e nos leva a fazer coisas desnecessárias sem confiar em Deus.

Talvez você esteja ansioso por algum problema, talvez um problema imenso e intransponível para você humanamente falando, mas experimente orar em paz, pedindo a glória de Deus em sua vida que muita coisa se resolverá. Se sua angústia for diagnosticada como patológica procure especialistas que podem ajudar muito, mas nunca os coloque, por maior valor que tenham, no lugar da ação de Deus em sua vida. Aliás, para quem precisa, um profissional honesto não sugerirá que você contrarie a vontade de Deus, fique atento a isso se for o seu caso específico.

Portanto, seja nossa ansiedade patológica ou não, ela tem um fundamento espiritual fortíssimo e só será resolvida espiritualmente quando aceitamos a glorificação de Deus em nossas vidas, com coragem para beber o cálice que Deus preparou para nós. O cálice representa a comunhão com Deus, representa também a alegria, a comemoração e o alívio, mas para isso precisamos carregar a nossa cruz para sermos dignos de Cristo.



Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo | Cartunista
Casado com Lucimar