15/05/2012

Pastores: Executivos ou Operários Rurais?


Foto: sxc.hu
Acabo de comprar uma revista Cristianismo Hoje, que ainda vou ler para não influenciar a opinião deste artigo, onde estampa-se a seguinte manchete “Pastores Feridos. Porque cada vez mais líderes estão abandonando o ministério?” Vamos usar a pergunta da manchete para avaliar a situação a partir da própria manchete sem ler, ainda, a matéria. Depois de ler a matéria publico outra postagem, mas por hora a manchete nos basta para refletir.

Penso que uma das respostas para o abandono do ministério está na própria pergunta, isto é, os pastores se consideram líderes. Existem pastores que andam com seguranças armados, pois são estrelas gospel; também alguns pastores julgam que por ser presidentes da igreja devem receber salários maiores do que outros pastores que denominam de auxiliares. Em um caso verificável na cidade de Niterói, houve época, em que o pastor presidente de uma igreja da região ganhava até 30 vezes mais que alguns pastores auxiliares ou dirigentes de ministério. Podemos lembrar também dos gabinetes fechados com fila para atendimento agendada pela secretária para uma conversa rápida e prática, bem à moda executivo, de menos de 10 minutos para os pobres. Claro que os mais abastados poderiam gastar algumas horas de aconselhamento, infelizmente. Além de seguranças armados, carro blindado, talvez, tais pastores têm também seu banheiro particular onde podem esconder sua humanidade, que seria um escândalo descobrir, afinal ela se manifesta no escremento que é igual para todos.

Enfim, temos pastores ou temos líderes? O preço da liderança é alto, para a igreja  que se torna objeto e para o sujeito que perde sua humanidade tornando-se um manequim dos anseios daqueles que desejam um líder “com pose de pastor”. Pior, muitos pastores anseiam por isso, basta frequentar algumas reuniões de associações de igreja para verificar o excesso de retórica e ausência de argumentos. A liderança inspira inveja, e o pastor que adota o maniqueismo do executivo, mesmo que bem intencionado, alimenta e retroalimenta essa situação depredatória vindo a sofrer e fazer outros sofrerem.

Mas alguém diria: “Ah, os líderes são absolutamente necessários! Não se pode ir contra a liderança de um servo de Deus!”, pera aí, vamos por partes. Aqueles que usam este argumento usam o exemplo do povo de Israel desobedecendo a Moisés e recebendo a repreensão de Deus. Dizem que assim como Moisés eles devem ser respeitados pois “ai daquele que toca no ungido de Deus”. Obviamente esquecem que, em Cristo, todos nós somos ungidos de Deus e não somente o presidente estatutário.

É interessante notar que Moisés não era bem um líder no conceito do termo, ele não conseguia convencer ou motivar ninguém a nada. As oposições a Moisés provam que não era o chefe daquele povo mas que era servo de Deus, apenas um servo que pastoreava o povo, mesmo que rebelde, obedecendo a Palavra de Deus.

Esse é o problema dos pastores de hoje: olham para Moisés ou para outro personagem bíblico e vêm um líder e não um servo. Não conseguimos reconhecer o que é ser servo pois estamos contaminados com ideias administrativas empresariais que não servem para a igreja, quer dizer, para as verdadeiras igrejas de Cristo. Estamos também contaminados por nosso padrão cultural de domínio onde desde Portugal medieval até o coronelismo no Brasil, não bastava ser digno tinha-se que comprar um titulo de dignidade, um título de nobreza. Queremos também que a igreja sustente toda nossa família quase que em sucessão hereditária assim como o Estado e a Igreja Católica sustentaram históricamente muitas famílias importantes, ou tradicionais.

Um verdadeiro servo não está preocupado com títulos de nobreza, isso pouco importa para ele. O importante é servir ao Senhor, que não é o presidente da igreja, mas Deus Todo Poderoso. O verdadeiro servo dorme no capim com as ovelhas e anda junto delas, seu banheiro também é ao ar livre, tudo é compartilhado pois todos se igualam em servir ao mesmo Senhor. Pastor não deve ser comparado como executivo mas como operário rural, entretanto, sem as explorações dos falsos irmãos.

Imagine esta figura: um pastor de ovelhas (animais mesmo) é contratado para pastorear. Ele aceita o trabalho mas quer fazer do seu jeito. Monta um escritório e começa a dar ordens aos outros pastores e mandar recados para as ovelhas. O que os outros pastores pensarão? Ora, que este pastor burocrático é o dono, que é ele quem manda. Mas um dia o dono da ovelhas volta, vê a situação e manda o folgado fazer o seu serviço junto com os outros. O que acontece? O burocrata fica infeliz, mas aí já é tarde demais pois o dono do rebanho voltou.

Quero deixar um apelo aos crentes: não procurem mais executivos para a presidência de suas igrejas. Procurem pastores, até mais de um, pois pastores andam em grupo e recebem o mesmo salário.

Deixo também um apelo aos pastores: não se encantem com os padrões do mundo, não pensem e saiam pregando que são líderes do rebanho, pois a heresia da doutrina da prosperidade neopentecostal começou aí. Sejam servos e não executivos! Sejam pastores e não super-homens!



Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo
Casado com Lucimar