11/05/2012

O amor ao dinheiro e as relações ansiosas de trabalho


Tenho me impressionado com situações espirituais nas relações de trabalho. Existem problemas de todo tipo que desumanizam as pessoas com a mera finalidade de produzir para ganhar mais. Para refletir sobre essa espiritualidade no trabalho vou “desabafar” um caso do qual participei e depois vamos analisar suas implicações espirituais.

Aparelhos antigos têm suas incompatibilidades. Meu pai tem um aparelho de TV antigo sem entrada para DVD, mas não querendo comprar um novo pediu que comprasse um modulador. Quando compramos o aparelho, perguntei ao vendedor se existia problema com codificação NTSC e PAL, ao que fui informado que isso não ocorreria.

Levei o aparelho, liguei corretamente, configurei TV e DVD e deduzi que o problema era com a dita codificação. Meu progenitor ligou para a loja e falou como uma senhora muito esbaforida que disse que trocaria o aparelho por outro adequado. Depois descobri que era mais uma informação errada, pois não bastava trocar o aparelho seriam necessárias outras ações.

Voltei à loja com o aparelho e pela dinâmica daquela senhora e por ser a única mulher no ambiente de trabalho deduzi ser a mesma pessoa que informara ao telefone. Desejei-lhe bom dia, ao que ela respondeu de costas correndo ansiosamente para atender a todos. Informei novamente o problema a um rapaz, a senhora logo interrompeu afirmando que eu “não sabia configurar o DVD, pois todo player aceita os dois sistemas”. O rapaz, subordinado, tentou repetir a afirmação da gerente, mas reafirmei que o DVD não aceitava o aparelho e como a senhora insistia que eu “não sabia usar o componente” então fiz apenas uma pergunta em tom de voz normal: “você estava lá para testar o aparelho e afirmar isso?” Em termos lógicos uma pergunta não é ofensa, embora em termos emocionais possa ser encarada assim, mas afirmações repetidas e infundadas de que você é ignorante são ofensivas tanto na lógica, por serem afirmações, quanto no campo emocional.

Provavelmente querendo livrar-se do problema da promessa feita ao telefone, a senhora irritada, tomou o aparelho da minha mão e me deu o dinheiro de volta, mesmo sem eu pedir. Com isso ela ofendia minha dignidade e ainda disse para que eu fosse comprar outro aparelho “num lugar mais caro”. Expliquei para o rapaz que pergunta não é ofensa, sai e fui para outra loja.

Na outra loja, até mais humilde, o vendedor não só me atendeu bem como me explicou que a transição desejada poderia ser feita através de um vídeo cassete e que a marca SONY realmente não vem com codificação PAL. Voltei à loja anterior, passei esta informação para o rapaz que tentou se justificar, mas não abri a discussão disse apenas que eu estava informando e recomendei educadamente, embora nervoso, que se empenhassem mais no cuidado quanto ao atendimento dos clientes.

Bom, apesar de tentarem ofender minha dignidade transformei o dinheiro devolvido, e economizado graças ao bom profissional da outra loja, em coisas mais divertidas e úteis.

Possivelmente estarão com raiva de mim, mas eu não estou com raiva deles, foi questão de momento. Provavelmente aquela gerente é uma boa profissional, do contrário não seria gerente, mas está tão estressada e aprisionada aos seus algoritmos técnicos que não consegue dialogar, apenas produzir, e pelo jeito, em excesso, mal remunerada e insatisfeita. O problema seria do patrão? Talvez, mas é algo mais profundo que tem atormentado as almas das pessoas: o amor ao dinheiro.
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. 1 Timóteo 6:10
O apóstolo Paulo nos diz que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. As pessoas não trabalham mais por realização pessoal com qualidade de vida, mas apenas pelo dinheiro que vai pingar na conta. Muitas vezes o dinheiro ganho com muito esforço acaba sendo mal utilizado devido à ansiedade em consegui-lo e a necessidade de comprar. Comprar é a única realização que o dinheiro pode dar. Veja no caso relatado quantos problemas provocados pelo estresse da responsabilidade em vender para comprar. Estamos abandonando as pessoas, ofendendo sua dignidade jogando dinheiro em suas faces para mostrar nosso poder de vender, comprar e descartar. Mesmo que o descartar implique em que o descartável sejam pessoas.

Aprendemos com Paulo em contraponto com a situação exemplo, que se queremos o bem, devemos ignorar uma dignidade presente no dinheiro. Graças a Deus, e não a mim, consegui superar a indignação do dinheiro lançado em face para comprar coisas divertidas e úteis. Melhor ainda, Deus permite que nesses momentos reflitamos sobre a situação humana nessa pós-modernidade tão elogiada pelos mundanos. Mesmo que a pós-modernidade com suas políticas e tecnologias adjacentes nos tragam melhores condições de vida ela não traz de forma nenhuma qualidade de vida.

Qualidade de vida é algo além do material, é também espiritual. Não é importante querermos aumentar nosso salário para cobrir nossos gastos, é importante adequar nossos gastos e esforços ao nosso salário, ao que é realmente útil e necessário. Isso é espiritualmente pessoal e social, pois em si o individuo precisa entender que não precisa de tanto dinheiro e, por outro lado, é importante que os alvos de venda de seu emprego não sejam extremamente ambiciosos. A espiritualidade está em reconhecermos isso e orar por nossos patrões, por nós mesmos e por nossos clientes ou usuários de serviço de forma abençoadora e não de forma competitiva. Na cultura da competição sempre há perdedores.

Nessa competição também se entra numa batalha espiritual. É comum ouvirmos pedidos em igrejas neo-pentecostais de batalha espiritual para o sucesso nas vendas, até mesmos "corrente dos empresários" ocorre nesse meio. Mas não deve ser assim, devemos orar a Deus para que tanto nós quanto nossos patrões nos contentemos com nossos salários, conforme João Batista aconselhou os soldados de seu tempo (Lucas 3.14). Do contrário, se amamos o dinheiro, partimos para a ansiedade, para discórdias, injúrias e falta de perdão por avaliar nossas respostas apenas no nível técnico mecanicista, como a gerente, ou lógico formal, como eu, e não no nível amoroso conforme Jesus deseja. Vamos nos esforçar mais para fazer a vontade do Pai. Que Deus nos abençoe neste intento.



Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo
Casado com Lucimar