10/05/2012

Natanael e a figueira

Geralmente ficamos intrigados ao ler o chamado de Natanael onde Jesus lhe diz que é um verdadeiro israelita em quem não há dolo. Natanael se espanta e reconhece que Jesus é o Cristo após o Senhor dizer-lhe que o vira quando estava debaixo da figueira. Lendo somente o contexto imediato nos parece estranho, até porque, conforme nos informa Buckland, segundo a Bíblia, todo israelita sentava-se embaixo de sua figueira (1 Reis 4.25; Miqueias 4.4; Zacarias 3.10). Vamos entender isso.

Esse período da chamada dos discípulos compreende a pregação e prisão de João Batista, a pesca maravilhosa e a coleta de espigas pelos discípulos de Jesus no sábado. O que isso tem conexão com a figueira de Natanael? Veja:

Primeiro, lembremos que João Batista era bem radical com as autoridades e sacerdotes, condenando até Herodes por casar-se com Herodias a esposa de seu irmão. Num momento entre o Batismo de Jesus e a escolha dos discípulos João Batista foi preso. Alguns dos primeiros discípulos de Jesus o foram de João Batista, André e João por exemplo. Percebemos que João Batista despertara no povo um pensamento mais misericordioso sobre o que é ser povo de Deus. Isso, provavelmente, agiu na mente de Natanael de forma a fazer sentido e reflexão profundos.

Podemos dizer que tal período era de chuvas. Quando chove é difícil pescar pois as águas abundantes turvam as águas espantando os peixes no Mar da Galileia, também chamado de Lago de Genesaré, que estando no vale do Jordão entre dois planaltos com altas montanhas recebia grande carga d'água na época de chuvas. A navegação na antiguidade também buscava margear a costa para evitar naufrágios e perdas de vida ou de carga, portanto, os discípulos pescadores pescavam perto da costa e em águas turvas. Isso nos dá uma noção da maravilha operada naquele momento, totalmente impossível de acontecer como reconheceu Pedro um profissional experiente da pesca.

Se era época de chuvas, era próxima a colheita. O fato dos discípulos catarem espigas de trigo para se alimentarem durante a viagem no sábado comprova essa época. Nesta época, por volta de maio, também frutificavam as figueiras.

A figueira representa Israel como árvore que deve dar primeiro os frutos e depois as folhas conforme a época. Quando Jesus buscou frutos na figueira num momento posterior aos citados anteriormente, por ter somente folhas, a fez secar e demonstrou em seu contexto que referia-se a Israel como figueira, orgulhosa, cheia de folhas espirituais quando deveria estar dando frutos. Essa passagem tem conexão com a pregação de João Batista que dizia que toda árvore que não dá frutos seria cortada e lançada ao fogo referindo-se aos mestres da lei.

Natanael era piedoso e provavelmente ouvira a pregação de João Batista entendendo do que se tratava. Podemos deduzir que Natanael estaria pensando nisso debaixo de uma figueira, como Jesus confirmou, e que Jesus conhecia este pensamento, pois ele conhecia o coração das pessoas. Natanael sabia que um verdadeiro israelita não poderia ser orgulhoso. Os mestres da lei diziam que não surgia profeta de Nazaré, Natanael sabia disso, mas ao ser informado por André não resistiu com dolo preconceituoso contra o Nazareno, mas foi até Ele e o adorou. Por isso ele não tinha dolo, não se conformava à padronização religiosa sem Deus, mas buscava a verdadeira religião na Palavra de Deus.

Assim devemos ser nós como povo de Deus. Evitar o orgulho que a política secular, eclesiástica ou as conveniências da amizade com o mundo nos trazem para refletir sobre o que é ser povo de Deus. Somos cúmplices dos filhos de Belial ou meditamos no contexto da aplicação da Revelação de Deus a nossas vidas? Façamos como Natanael para sermos elogiados por Jesus no último dia dizendo "vinde benditos do meu Pai".

Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo
Casado com Lucimar