19/05/2012

Clericalismo e anticristos

Hoje minha esposa, que gosta muito de ouvir rádio, ouviu um pregador afirmando que "o príncipe só vira rei quando o rei morre" e pedindo dinheiro descaradamente dizendo que os fiéis nunca passarão de príncipes. Não interessa quem é esse pregador, mas uma coisa podemos depreender de suas palavras da teologia da prosperidade: tais pastores são inimigos de Deus. São verdadeiros anticristos que colocam o trono do homem da iniquidade onde não deveria estar, ou seja, na igreja de Cristo. Leiamos a Escritura:
Ora, quando vós virdes a abominação da desolação estar onde não deve estar {quem lê, entenda}, então os que estiverem na Judéia fujam para os montes; Marcos 13:14

Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! ou: Ei-lo ali! não acrediteis. Porque hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão sinais e prodígios para enganar, se possível, até os escolhidos.Marcos 13:21-22
Talvez, ao ler este blog alguns pensem que "Este cara é muito radical com as falhas pastorais. Pastores são seres humanos". Concordo. Sou radical e pastores são seres humanos, mas permanecer reproduzindo os mesmos erros é hipocrisia. É contra a hipocrisia que falo e não contra indivíduos. Esta hipocrisia baseada na mandância e na articulação politica para manutenção de uma imagem intocável, e não irrepreensível, é que foi e continua sendo o alicerce de construção dos falsos profetas. Isso mesmo irmão, os falsos profetas usam a aparência de pastor, que criamos, para se envolver na igreja. Sem a aparência de pastor ou a "pose de pastor" os anticristos não poderiam ser confundidos com pastores.

Quando Paulo escreve a Timóteo ele trata de falsos pastores que agiam assim. Tais falsos pastores tinham uma fé fingida e posavam de doutores da lei, e muitos os seguiam para o inferno (1 Timóteo 1.3-7). Paulo ainda continua falando a Timóteo que ele, como pastor deveria continuar na essência pastoral e não na mera aparência, para pelejar a boa peleja de consciência pura diante de Deus (1 Timóteo 1.18-19).

Mais a frente, Paulo exorta a igreja para que oremos pelas autoridades civis para que nossa vida seja tranquila e sossegada e para que se possa falar de Deus ao próximo. (1 Timóteo 2.1-4)  É interessante notar que Paulo refere-se a autoridades civis constituídas do império romano, pois essas autoridades, vez por outra perseguiam a igreja a partir de falsas acusações de pagãos que desejavam ficar bem com o Estado às custas do sofrimento da igreja.  Embora se use esses versículos em referência à autoridade eclesiástica, eles referem-se à autoridade civil e  militar do Estado.

Ora, então não devemos orar especialmente por nossos pastores? Claro que devemos, assim como pelo zelador da igreja, pelas viúvas, pelos doentes, por qualquer irmão. Orar pelos irmãos é um exercício de amor que deve ser estendido a todos. Então em que termos Paulo se refere aos pastores e diáconos?

Tomando por princípio que todos somos iguais perante Cristo, Paulo dá a mesma responsabilidade a pastores e diáconos, aliás, diácono não é auxiliar de pastor, a Bíblia nos mostra que ambos são conservos e que diáconos são todos aqueles que servem à igreja de diferentes maneiras que não sejam a atividade pastoral em si. Ao pastor e diácono, assim como a todos os crentes cabe, na concepção paulina, ser irrepreensíveis.

A extensão do texto bíblico dá a entender numa leitura superficial que Paulo fala uma coisa para os pastores e outra para os diáconos como subordinados, porém essa não é uma correta interpretação. Façamos um recorte no texto de 1 Timóteo 3 para tornar mais clara essa ideia:
Fiel é esta palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível (1 Timóteo 3:1-2)  Da mesma forma os diáconos (1 Timóteo 3:8) exercitem o diaconato, se forem irrepreensíveis. (1 Timóteo 3:10)
Leia todos os detalhes do texto de 1 Timóteo 3 posteriormente, com vagar,  e veja que é solicitado o mesmo a ambos e que não é citada subordinação. Essa ideia de subordinação surgiu historicamente pelo movimento de alguns pastores, incomodados pela maioria de diáconos que às vezes se opunham ao pastor. Era interessante politicamente, para um mera coesão de decisões na estrutura institucional, estabelecer o pastor como "executivo" e subordinar os diáconos a meros "gerentes" para solucionar esse conflito. É a partir dessa distorção aparentemente apenas de cunho prático na estrutura da igreja, que os falsos profetas criaram a figura de "obreiro" para tocar o seu mercantilismo da fé como mão de obra sem custo e sem voz.

Lembremos que os diáconos foram instituídos para ajudar os apóstolos na assistência aos pobres, os pastores não são sucessores dos apóstolos nesse sentido de organização da igreja, senão os pastores seriam como apóstolos. Entender os pastores como auxiliados pelos diáconos é hierarquização da igreja o que contraria o princípio bíblico de igualdade entre os irmãos.

Argumento dessa maneira para esclarecer que o formato em que os anticristos se baseiam foi construído pela igreja fiel, mesmo que de forma inconsciente e sem maldade por muitos a partir de uma herança cultural religiosa, que simplesmente não confrontamos com as Escrituras.

O pastor executivo, o diácono subordinado, a pose de autoridade que é ferramenta dos anticristos foi construída por crentes fiéis, alguns até se julgando "paladinos" na defesa da doutrina e da fé cristã. Nossa forma de agir como igreja, fugindo dos padrões encontrados no Novo Testamento, aliado a eficiência notável das organizações batistas e de outras denominações, foi o que inspirou muitos destes anticristos.

Entende agora porque sou tão radical? Não pode existir meio termo, ou servimos a Deus, ou servimos ao clericalismo. Servir a Deus é melhor pois ao clericalismo qualquer incrédulo pode servir, exemplo disso são as várias heresias que surgem diariamente com seus falsos cristos e falsos profetas.

Muitos já dizem que precisamos de uma nova reforma entre os evangélicos, é verdade. Entretanto, essa reforma não deve ser em termos de doutrina, pelo menos não entre os batistas conforme o meu olhar, essa reforma sugerida deve alcançar nossa estrutura para tornar-nos ainda mais fiéis a doutrina, ainda mais neotestamentários e ainda mais irrepreensíveis no que tange ser um crente.

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória. 1 Timóteo 3:16
Mas o Espírito expressamente diz que em tempos posteriores alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras e têm a sua própria consciência cauterizada, 1 Timóteo 4:1-2

Marco Teles
B.el Teologia | Pedagogo
Casado com Lucimar