24/02/2012

Lançar a mão do arado

Lançar a mão do arado, ou no popular, pegar no arado para trabalhar é uma figura importante quanto ao ministério de pregar o Evangelho. Jesus nos diz que ao pegar no arado para trabalhar a seara de Deus não devemos olhar atrás. Alguns pensam que não olhar para trás é manter mero ativismo, mas o importante não é o exercício em si, mas a persistência. Muitos persistem em pregar o Evangelho sem seguir os exercícios padronizados de uma liderança, mas mantendo-se fieis a Deus, apesar das circunstâncias.
Podemos aprender com Lucas 9.62 algumas coisas interessantes ao referenciar com a geografia bíblica. A palestina é um lugar acidentado, com montanhas de neve, desertos, florestas, um belo litoral e um mar tão salgado onde nenhum peixe sobrevive. O clima da Palestina também é singular, a época das chuvas era muito esperada para cultivar nos tempos bíblicos, pois sem chuva era impossível arar a terra de tão rígida que se tornava. No entanto, as chuvas eram torrenciais, trovejantes, de dar medo. As pessoas nessa época mantinham-se protegidas em suas casas. Mas o agricultor não podia perder a oportunidade de amolecimento da terra pela chuva para arar o seu campo preparando-o para a agricultura. Muitas vezes o agricultor seguia sobre trovões e chuvas fortes fazendo o seu trabalho, pois se buscasse abrigo, largando o arado, não conseguiria plantar a tempo de garantir o sustento de sua família.

Durante a pregação do Evangelho passamos por tempestades e queremos buscar abrigo. Ninguém pode dizer que nunca desejou abrigo ou que não desejará ou atribuir essa obrigação a alguém. A escolha de não voltar para o abrigo, mas de encarar as tempestades da pregação de maneira digna é o mais importante. É também uma escolha individual. As formas de encarar a tempestade são variadas, cada um tem seu próprio guarda-chuva, ou capa, ou chapéu, mas o importante é ter dignidade na forma de encarar a tempestade. Para encarar as tempestades de evangelizar precisamos de caráter, doutrina e princípios. Existem muitas pessoas que parecem estar com a mão no arado, mas na verdade não estão, pois usam recursos que contrariam a ideia de se molhar na chuva. Muitos usam, por exemplo, a política denominacional ou a bajulação.

Quanto à política, alguns líderes, talvez não servos, contam meias verdades, seguem o autoritarismo, personalizam o ministério e dizem que estão com a mão no arado quando realmente as meias verdades, o autoritarismo, e o personalismo são enormes abrigos aos quais o líder ser recolhe empurrando outros para a chuva. O interessante é que os que são empurrados para a chuva muitas vezes entendem que o sujeito "é o cara". Diriam alguns educadores que o oprimido, aceita a opressão e não conhece outro caminho que não passe por ela. Talvez esses educadores tenham alguma razão. Precisamos pegar o nosso arado e seguir sem usar artifícios para disfarçar nossa vaidade, mas até reconhece-la e corrigi-la. Sem arrependimento ninguém consegue mover o arado corretamente, poderá até sulcar a terra, mas gerará problemas machucando pessoas no caminho.

Outra coisa interessante é a bajulação. Estamos tão acostumados a bajular que até achamos bonito. Se vamos pregar diante de alguém famoso elogiamos o sujeito e dizemos o quanto nos sentimos menores por falar perante ele. Em minha opinião isso é um absurdo. Não importa quem seja a "sumidade", se vamos pregar, o fazemos por obediência a Deus e não por submissão ao homem. Devemos sim, cordialmente agradecer à igreja e ao pastor pela oportunidade, mas nunca bajular alguém como "baluarte da fé". Onde estará a autoridade de nossa pregação? Em submeter-se a Deus ou submeter-se aos homens? Todos somos iguais perante Cristo, não precisamos exaltar ninguém se fomos chamados para exaltar a Deus.

Penso na verdade, que ao bajular uma autoridade humana não somos humildes de fato, pois estamos agradecendo por entrar no seu seleto time. Se fizermos parte de um time seleto já não somos igreja de Cristo, pois todos os membros do Corpo de Cristo tem igual importância. Não digo isso para desanimar alguém que pega no arado, ao contrário, para exortar a pegar no arado com a motivação correta. Precisamos de caráter que não esmoreça no caminho da tempestade, precisamos conhecer e pregar a sã doutrina em meio a tempestade, e precisamos também de fidelidade aos princípios bíblicos para não corrompermos a nós mesmos ou machucar pessoas pelo caminho.

Faço um apelo a você que deseja pregar o Evangelho, que serve para mim também: Ande na tempestade com caráter, firmeza na fé e com dignidade de princípios. Não se esconda no autoritarismo, ou na política da bajulação, pois isso pode até ser um bom marketing pessoal e agradar as "pessoas que interessam", mas são mera ilusão que nos levam a empurrar o arado sem sulcar a terra corretamente. O ativismo, a política, produzem muito menos fruto e muito mais feridas do que a persistência, pois o que faz diferença não é vermos o agricultor em destaque, pois a própria tempestade atrapalha a vista, a diferença está na saúde da colheita com frutos bem cuidados e que produzem novas sementes.

E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus. Lucas 9:62


Bibliografia
Biblia Sagrada. Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Lucas 9.62 disponível em <http://www.bibliaonline.com.br/acf/lc/9/62+> acesso 24/02/2012
STOTT,John. Entenda a Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.