03/02/2012

Disciplina na Igreja

Alguns pastores pensam que a igreja é uma teocracia onde eles são os executores. A igreja é uma teocracia mas todos os crentes são responsáveis pela igreja e não alguém que se arvore por ânsia de poder. Um dos casos crassos onde há uma séria incoerência de interpretação é quanto a disciplina na igreja.

O termo disciplina pode ser entendido como o regime de regras de uma organização ou ainda como ensino. A igreja não é uma organização militar ou coisa parecida com preceitos engessados hierarquicamente. A igreja é o corpo de Cristo orgânico e não organizacional. Numa organização basta trocar uma peça, num organismo qualquer parte faz falta.

É interessante notar que os mesmos que se apegam a disciplina militarista na igreja se tornam extremamente liberais quando os pecadores pertencem a suas famílias. A partir dai vemos que a disciplina na igreja não é como a disciplina nas forças armadas de onde muitos pastores são oriundos.

Antes de continuar esclareço que não sou contra a disciplina ou mesmo os militares, mas as coisas devem ser bem entendidas e ocupar seu lugar adequado. A vivência de um organismo vivo e sensível, corpo de Cristo, pertence a igreja. As regras cruas, normativas e hierárquicas pertencem aos quartéis. É bom até que militares permaneçam muito tempo nos quartéis pois, pela sua finalidade, suas saídas são emergenciais quando necessárias para a segurança e soberania nacional. Se vivemos um militarismo civil estamos invertendo os papeis e as funções, senão até cometendo um desrespeito a Constituição que proíbe instituições paramilitares. Outro esclarecimento, é que o desligamento do rol de membros não é disciplina, é mero ato administrativo, que pode ser precedido de disciplina, ou não como na transferência de uma igreja para outra no caso de mudança de endereço do membro.

Infelizmente alguns pastores seguem o caminho militarista em suas igrejas tratando-as como organizações e não como organismos. Vejamos o caso da disciplina, especialmente a denominada "disciplina cirúrgica" na igreja. A disciplina cirúrgica na eclesiologia de muitas igrejas evangélicas, inclusive batistas, refere-se a cortar um membro pecador do convívio da igreja. Tal ideia baseia-se também em 1 Coríntios 5.5:

Seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus. 1 Coríntios 5:5

Alguns defendem que ao tirar da comunhão, a igreja lança a pessoa no inferno, desculpe mas isso é meio ridículo, pois se o próprio Jesus diz que não nos lançará fora, como a igreja pode lançar? Além disso tal interpretação é incoerente com a segunda parte do versículo que veremos mais a frente.

Explicando: entregar, neste versículo, tem o sentido de ceder ou deixar de insistir. Satanás brama ao redor querendo nos tragar, o inimigo não sonda corações para saber quem é convertido, nem nós, por isso ao cessar de buscar a comunhão com o indivíduo ele será assaltado por Satanás para tirar sua vida pois o Diabo não quer que ninguém se salve. O individuo, mesmo uma vez salvo, que busque o caminho do vício está sujeito a investidas mortais de Satã.

Ora, mas porque o espírito se salvaria no último dia? Porque existe a possibilidade do excluído, mesmo pecador, ser salvo ou vir a salvar-se. Se o indivíduo morrer pelo seu pecado, Jesus não retira a Salvação, pois segundo as doutrinas batistas, Salvação não se perde. Note que se o individuo perdesse a Salvação ao sair da igreja para o mundo dificilmente Paulo admitiria Salvação para ele.

O termo "seja salvo" seria o equivalente a "talvez possa ser salvo" pois encontra-se no subjuntivo em grego o que significa uma possibilidade. Na impossibilidade de saber a realidade interior do outro julga-se pelos frutos. Mas isso aplica-se a todos os indivíduos na igreja? Obviamente não.

Essa excomunhão é atribuída por Paulo para alguém que estava na igreja, cometendo pecados de tal monta, que mesmo os ímpios tinham nojo de tal pecado. O termo usado no versículo 13 para referir-se a este tipo de pessoa é "malfeitor" ou seja, o mesmo que criminoso, ou delinquente no âmbito de toda a sociedade. Portanto, não existe disciplina cirúrgica para quem apenas discorda do pastor. É necessário que o indivíduo possa ser classificado como criminoso mesmo entre os mundanos. Por isso a disciplina cirurgica não deve estar ligada a autoridade de um indivíduo, mas sim ao reconhecimento notório da sociedade e da igreja de que o pecador não comunga da vida cristã.

(acréscimo em 13/02/2012) Para esclarecer melhor, evitando dúvidas, estão biblicamente incluídos nesses incorrigíveis para a excomunhão aqueles cujos pecados notórios estão citados nos versículos abaixo pois se não entrarão no céu não fazem parte da igreja, lembrado que timidez nos versículos abaixo é envergonhar-se de Deus

Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. 1 Coríntios 6:10 
Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte. Apocalipse 21:8 
Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina, Conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado. 1 Timóteo 1:8-11


Quanto a disciplina de modo geral ela deve ser educativa, para ensinar e reorientar o desgarrado. Só será disciplinado pelo ensino o irmão em Cristo. A tal "disciplina cirúrgica" é termo errado pois não é disciplina. Quem pode amputar a igreja, ou melhor, o Corpo de Cristo? O que ocorre com o sujeito inveterado, que não podemos saber se é salvo ou não é a excomunhão, no sentido de afastar-se da comunhão com o mesmo e da passividade perante seus pecados.

Mas vamos e venhamos, quantas pessoas não estão na condição necessária para a excomunhão e recebem  uma amputação pastoral? Tomemos cuidado com a aplicação da disciplina, pois muitas vezes ela é utilizada para satisfazer a mandância e o partidarismo de alguns líderes. Usemos a disciplina como ensino, como admoestação, e não como mera punição de regime autocrático que posa de teocrático.