31/12/2011

Sacerdotes batistas


Dentre os princípios e doutrinas batistas estão o do sacerdócio universal do crente que significa que ninguém é nosso intermediário a não ser o próprio Cristo perante o Pai, portanto não temos sacerdote que faça sacrifício por ninguém. Também outro principio é o de igreja democrática onde todos são iguais não havendo diferença hierárquica entre irmãos e sendo a assembleia da igreja, ou seja todos os irmãos reunidos em igualdade, soberana em suas decisões. Alguns pensam que o presidente seria a autoridade máxima na assembleia, o que é um erro, pois o presidente é um mero moderador das decisões de todos e não autoridade maior do que essa, salvo em caso específico, se concedida excepcionalmente pela assembleia reunida de preferência com a maioria dos membros presentes. 

Ufa! Falei demais, mas é só para entender o raciocínio que desejo discorrer sobre um comportamento que contraria esse princípio. Esse comportamento a que me refiro é o “sacerdotalização” da função pastoral.

Não é de hoje que pastores de outras denominações, de governo oligárquico ou monárquico, consideram a democracia batista um empecilho que engessa a administração eclesiástica. Óbvio que discordo dessa opinião. O problema não é a democracia na igreja, mas sim o fato de não sabermos lidar com ela. A igreja primitiva em Jerusalém lidava bem com a democracia eclesiástica tanto que o “tinham tudo em comum”. Como disse o problema somos nós porque não queremos ter mais nada em comum, mas desejamos controlar tudo para “proteger a igreja”, aliás, a partir de ideia similar a igreja católica instituiu o papado. Nós não queremos papas, mas de forma sutil, até inadvertida, agimos como se isso fosse o “normal”.

Isso daria um estudo extenso, mas como nosso espaço é focado na objetividade mesmo na subjetividade do espiritual, vou dar um exemplo e discorrer sobre um texto bíblico para expor o raciocínio.

Se todos os irmãos são iguais não há classes entre eles poderíamos pensar com certeza, mas às vezes ocorrem pronunciamentos onde alguns parecem mais iguais do que outros. Exemplificando, quando uma igreja está cheia e há um grupo de pastores é comum que o pastor com a palavra dirija-se a igreja como “irmãos” e “colegas pastores”. Ora, na igreja há irmãos ou há colegas? Colega refere-se a pessoas iniciadas em um ambiente especial e seleto seja ele profissional ou acadêmico, não é esse o caso da igreja, portanto somos todos irmãos e é indiferente nossa função. Aliás, você já ouviu alguém dizer “colega zelador”? Penso que não.

Isso pode ser uma sutileza, mas demonstra uma aceitação a classificação entre cristãos batistas. Se classificamos, criamos diferenças e logicamente hierarquizamos. A consequência lógica disso é um comportamento autoritário da parte de alguns que se julgam mais iguais do que outros. Isso também pode ser entendido, e de fato, como política eclesiástica.

Talvez você diga que a política é inerente a todo grupamento humano, sim, mas num grupo de iguais a política democrática não pode ser classificatória, mas sim buscar o crescimento mútuo de todos em igualdade. Vejamos um exemplo Bíblico.

Os fariseus e saduceus, além de ensinar a lei de Moisés nas sinagogas e no templo, eram partidos políticos que esperavam um messias político que daria primazia a Israel. Sabemos que eles estavam errados, pois Jesus veio para um plano espiritual e não político. Esses fariseus e saduceus, um dia, fazem um desafio a Jesus pedindo-lhe um sinal dos céus e Jesus lhes diz que o único sinal que lhes daria seria o do profeta Jonas. O que seria o sinal do profeta Jonas? Estar no ventre do peixe? Talvez, se tomarmos como símbolo da ressurreição de Jesus ao terceiro dia, entretanto penso que Nosso Senhor tinha algo mais em mente.

Como já explicamos os fariseus e saduceus eram políticos nacionalistas e, além disso, enfatizavam um zelo exagerado pelas Escrituras com repulsa pelos gentios, como nós se vivêssemos naquela época, que eram considerados impuros. Poderíamos chamar isso hoje em dia de preconceito. Jonas também tinha uma visão politica semelhante. O profeta, ao ser mandado pregar ao povo de Nínive, tentou recusar a ordem de Deus porque sabia que se aquele povo se arrependesse Deus os salvaria como de fato aconteceu. Jonas preferia manter sua política nacionalista, contra aquele povo que havia maltratado o seu, do que pregar a Palavra de Deus.

Esse é um sinal de Jonas: aqueles que são desprezados pelos religiosos politizantes nunca serão esquecidos por Deus. Jesus morreu por todos e não só por uma classe de pessoas. Esse também era o fermento dos fariseus: querer ser uma classe mais santa entre todos os que creem, eles eram políticos demais, e reforço, políticos sem nenhuma democracia.

Preocupa-me essa classificação política entre cristãos, especialmente nós batistas, pois isso só nos leva a rejeitar o próximo, que é igual a nós em nome de uma alegada “posição de iniciado”. Não existem iniciados na igreja, pois todos nos igualamos na Salvação em Cristo e não em nossa função eclesiástica. Aliás, esse é nosso discurso.

Entretanto, vejo muitas pessoas preocupadas e sofrendo com isso, outras aderindo, mas esse comportamento é pernicioso e contraria nossas doutrinas e princípios. Quantas pessoas são feridas no processo de autoritarismo resultante dessa disposição de ser um iniciado? Aliás, esse autoritarismo é negado com unhas e dentes, pois para admitir isso é necessário perder, ou não assumir, posição de destaque quase caminhando para o sacerdotalismo.

Meu desejo nessa mensagem é que nos conscientizemos da má politica eclesiástica e que voltemos a nossas raízes que estão além de qualquer titulo de “sumidade” ou mesmo nepotismo que transformam igrejas em currais eclesiásticos de meia dúzia de “senhores”. Desejo que neste ano que se inicia os pastores verdadeiros, pois eles existem, enfatizem mais o ensino bíblico da igualdade e democracia do que as “ordens” classificantes. Desejo que todos os irmãos, batistas especialmente, sejam fieis a seus princípios e tenham “tudo em comum” evitando e repudiando privilégios reservados entre irmãos.

Estou desejando muito? Com certeza. Entretanto não há impossíveis para Deus “em todas as Suas promessas” e está incluído na promessa de Salvação, sermos um assim como Jesus e o Pai são um. Por isso há uma esperança contra a classificação e a favor da unidade em Cristo, unidade esta que não é pensar igual, mas dialogar com o outro para que a vontade de Deus prevaleça e não a vontade de “quem manda”.
Uma vez um pastor me deu um conselho mundano, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Desejo que isso passe a mudar no meio batista no ano que se inicia, e que Deus nos abençoe para sermos o corpo de Cristo em igual importância e não meramente uma organização de classes.

Deus pode, mas a consciência é nossa, e devemos ser conscientes do que cremos.

Bibliografia:
Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida e Fiel. Mateus 16.1-12; Romanos 12.5; 1Coríntios 12.13; Jonas 3 e 4.