08/12/2011

Pregação de Anedota

Não queria falar nisso, mas de tanto ouvir irmãos piedosos impressionados com tal falsa verdade resolvi discorrer sobre o assunto.

Tenho ouvido a repetição de uma anedota, contada por aí, como se fosse uma verdade espiritual extremamente sábia, entretanto apenas esconde um preconceito autoritário em seu contexto. Anedota, é bom esclarecer, não é exatamente sinônimo de piada, mas de um dito espirituoso usado para dispersar discussões sérias e acaloradas pela via do senso comum e de uma certa ridicularização da ideia oposta.

A anedota é a seguinte: um pregador não consagrado julgava-se melhor do que o pastor e gabava-se de pregar melhor do que o "anjo" da igreja caso tivesse a oportunidade de pregar. A oportunidade chegou, o pregador não consagrado fez o seu melhor, mas ninguém se converteu. Triste, desceu do púlpito e sentou ao lado de um "sábio". Humilhado porque ninguém se convertera, lamentou-se com o "sábio" que logo lhe retrucou "se você tivesse subido ao púlpito como desceu, tudo teria sido diferente".

A consequente moral da história é: o pregador não consagrado é inimigo do pastor e alguém sem espiritualidade.

Tem alguma coisa errada com essa história. De tão obviamente verdadeira é tão falsa quanto uma nota de cem impressa sobre uma nota de dez reais. O que é falso nos encanta tanto porque parece ser mais confiável e real que a própria discussão sobre a verdade.

A primeira falsidade está em colocar o pregador não consagrado, de forma generalista, como alguém orgulhoso e inimigo do pastor. A generalização é transferida pela força emocional da anedota que choca e gera pensamento preconceituoso em quem a ouve. Podem até existir pregadores não consagrados que sejam orgulhosos, assim como existem pregadores consagrados que são orgulhosos, portanto, a generalização da aparente sabedoria é, na verdade, sabedoria mundana para estabelecer e fazer apologia de determinada forma de mandancia sobre a igreja.

A parcialidade da anedota demonstra total falta de isenção como forma de defesa de um pensamento, porém, esse tipo de recurso é muito útil para resolver de forma fácil problemas difíceis, mas não de forma satisfatória. É mais um discurso político e sofista do que um argumento. Claro que pessoas mais simples aceitam facilmente esse tipo de discurso, por isso, é suspeita tal articulação feita para o povo.

Outro erro crasso dessa anedota é avaliar uma pregação a partir do número de pessoas que vão a frente, o que é engano. A pregação eficaz não é a que traz muitas pessoas ao púlpito, mas a que faz com que as pessoas saiam com a mensagem do púlpito em seu coração. Uma pessoa pode não ir a frente, mas converter-se, batizar-se e ser uma bênção maior do que muitos que se prontificam todo domingo. Confessar a Jesus é muito mais do que atender ao apelo do pregador no domingo, é atender a Palavra de Deus diariamente.

Pensemos um pouco e veremos que o erro de querer muitas "conversões manifestadas" do pregador segue o exemplo de outros pregadores, portanto, um não é melhor do que o outro nesse quesito.

Outro problema do texto é o "conselho do sábio" que é apenas um juízo temerário, que se interpreta como sabedoria apenas porque o contador da história estabelece o clima e conclui assim. Logicamente, não podemos passar a julgar todo pregador não consagrado como um orgulhoso ameaçador apenas por juízo temerário.

Fica conosco uma aviso: não nos impressionar com belas palavras, com aparência de piedade, mas cheia de problemas que contrariam a verdade. Palavras bonitas são necessárias, mas elas não são tudo, especialmente quando de fala da palavra de Deus.