09/10/2011

Quem dará conta de nós?

De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. (Romanos 14:12)
Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil. (Hebreus 13.17)

Estes dois versículos são aparentemente contraditórios. Alguns pastores defendem que eles darão contas da igreja a Deus, baseados em Hebreus 13.17, outros reconhecem a democracia entre batistas como um processo de diálogo pois cada um é responsável perante Deus, também baseados em Romanos 14.12. Quem está certo? Quem está errado? Os dois estão certos? Vamos analisar.

Romanos 12, fala do juízo de uns sobre outros, que o verdadeiro juiz é Cristo a quem todos darão conta de si próprios. Ora, se damos conta de nós mesmos o pastor não dá conta de nós, pois se o fizesse assemelharia-se ao próprio Cristo como vicário. Neste caso se justificaria o papado pelas próprias palavras dos pastores evangélicos. Mas antes de concluir, falta falar de Hebreus 13.

O autor de Hebreus nos dá um conselho prático e não estabelece doutrina de que pastores prestarão contas da igreja. Observe que os pastores "velam por vossas almas, COMO aqueles que hão de dar conta delas", o texto não é uma afirmação mas uma comparação. Um verdadeiro pastor deve entregar-se ao cuidado das ovelhas de tal forma que se assemelhe ao cuidado de quem prestaria contas pessoalmente pelo outro, mas isso não significa que prestará contas, entretanto que agirá como se assim fosse. O conselho de Hebreus é prático tanto para a igreja quanto para o pastor.

É prático para a igreja pois dá um parâmetro para reconhecer o verdadeiro pastor e porque mostra que é improdutivo desobedecer a quem se entrega a cuidar do próximo, a quem só quer o bem da igreja e não sua mandância. É prático para o pastor pois define seu padrão de disposição para com a igreja, cujo alvo é tão sublime que ultrapassa sua própria responsabilidade, mas que mesmo assim orienta sua ação equânime perante o corpo de Cristo.

Estamos tão acostumados a padrões de mandância que não conseguimos sequer reconhecer um termo comparativo num texto. Digo que não conseguimos pois parece que é de boa mente que muitos pastores erram. Mas errar de boa mente não é característica de quem se entrega. A figura de linguagem do "como" expressa a disposição em sentimento de fazer tudo pelo outro, como se sofresse o sofrimento do outro. 

Esta deve ser a preocupação de um verdadeiro pastor, entregar-se em totalidade. A preocupação de obedecê-lo é útil à igreja, não porque ele seja o chefe, mas porque é inútil resistir ao amor e é injusto fazer sofrer a quem nos ama.

Que Deus nos abençoe a todos, pastores, irmãos, diáconos, para que a igreja deixe de ser hierarquia, no sentido etimológico de governo dos separados, para ser uma teocracia onde Deus reina em nós e através de nós.

Bibliografia
Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida e Fiel. Disponível em: http://www.bibliaonline.com.br/acf
THEWORD: Westcott-Hort. New Testament Greek with variants and Strongs numbers, 1881. Version 3.2.1.1167. Corfu(GR):  Costas Stergiou. 2003-2010. Programa de computador.