09/09/2011

Vocação Hereditária?

Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. Romanos 11:29

Outra versão do versículo acima diz que a vocação e os dons são irrevogáveis. Existem famílias pastorais pensando que dom e vocação irrevogável é também hereditária. Temos tantas igrejas controladas por famílias que fazem da igreja local, ou internacional, ou universal (nem sei mais!) o seu público consumidor e seu front de autopromoção. Dons e vocações não são hereditários pois Deus os dá a quem Ele quer, para o que for útil à Sua obra, e não para atender a necessidades de elites familiares e de agregados.

Há um clero na igreja evangélica atual que já assemelha-se, pelo menos caminhando para isso, conforme os cleros da Idade Média. Realmente, parece que vivemos numa nova Idade Média: famílias dominam a igreja que deveriam servir nos meios mais ortodoxos, chegando ao ponto mesmo de membros da igreja terem medo de falar por policiamento pastoral; outro retorno ao feudalismo religioso são os pregadores da prosperidade que prosperam mais do que os membros de suas igrejas, diga-se de passagem.

Mas queremos falar do feudalismo no meio ortodoxo, pois dos desmandos prosperadores da teologia barata neo-pentecostal já estamos bem informados. Interessante é que as famílias feudais posam de polo oposto ao domínio neo-pentecostal mas na verdade fazem o mesmo. Dizem que Não Fazem marketing pessoal, mas a igreja se torna o seu mercado. Geralmente são tão seguros de si que impõem sua autoridade à igreja quando a via democrática não flui a seu favor.

Às vezes chegam a ser maquiavélicos, colocando na boca de irmãos respeitados na igreja aquilo que eles gostariam de falar mas não é de bom tom assumir. Geralmente isso acontece nas reuniões fechadas iniciando a cizania com palavra como "Eu sei que não é ético falar sobre tal coisa, mas confidencialmente, a bem da verdade essa pessoa (ou essa ideia) é perniciosa". Claro que eu sintetizei muito o argumento malicioso pois ele dura vários minutos ou dias até ser assimilado pelo grupo que se reúne para discutir algum assunto administrativo. Pode-se comparar com um jogo de xadrez onde movendo-se as peças certas leva-se a diretoria, ou a comissão, à decisão que os senhores feudais desejam.

Porque escrevo isso? Para escândalo? Não! Para advertência e exortação. Advertência aos irmãos que de boa mente colaboram e que são levados sutilmente a caminhos personalistas e não realmente desejados pela igreja local. Exortação para os pastores, bispos, presbíteros (a mesma coisa para os batistas) que agem assim, pois se são vocacionados, porque não se contentam com o seu salário?

Meus irmãos, é contraditório que pastores que pregam a dedicação em tempo integral tenham seus negócios para-eclesiásticos. Se um pastor, seja quem for, possui negócios para-eclesiásticos mesmo que de natureza teológica, não dedica seu tempo integralmente à igreja local. Em verdade parte de seu tempo é da igreja, e parte da empreitada para-eclesiástica. Tal contradição não pode ser considerada normal, pois não se pode servir a dois senhores, pode-se dizer que não é possível servir à igreja e à para-igreja hereditária.

Por essas e outras incoerências sou cada vez mais a favor do ministério compartilhado e bi vocacionado. É prudente que se comece uma igreja com três ou mais pastores que tenham trabalho secular e se revezem no atendimento às ovelhas, era assim no tempo do Novo Testamento, vide Paulo com Áquila e Priscila como bom exemplo de pastores que fabricavam tendas. Interessante é que eles vendiam tendas, mas as cartas de Paulo e os outros escritos do Novo Testamento eram distribuídos gratuitamente, no entanto, hoje, somos ávidos por comprar qualquer livrinho que nos ofereçam como fonte ortodoxa de doutrina. Outro exemplo de pastorado compartilhado é Timóteo, ao qual Paulo orienta que não desprezem sua mocidade, isto provavelmente entre os anciãos da igreja conforme a cultura da época.

Uma igreja com vários pastores bi vocacionados é melhor atendida do que com um só, que se pretende em dedicação integral, mas não admite que isso é inviável. Uma prova da inviabilidade da dedicação integral é a invenção dos pastores auxiliares e dos diretores de ministério para ajudar o presidente. Ora, pelo que vimos, nem o jovem Timóteo foi auxiliar de ministério. Pastor é pastor e pronto, sem hierarquia, em igualdade de condições e revezando a presidência entre eles.

Quando se coloca um pastor como auxiliar já se despreza o mesmo, senão em sua mocidade, em outra coisa o é. Dirão alguns: "ha, mas você não quer se submeter", outra falácia, pois como crentes em Cristo devemos nos submeter uns aos outros e não a um presidente que nem sempre se submete a igreja. Aliás a função de presidente é apenas moderadora na igreja de Cristo. A ideia de presidente da igreja como executivo foi emprestada do sistema de gestão industrial e comercial . Essa ideia de executivo fica extremamente clara quando um pastor passa mais tempo no gabinete ou em seu escritório doméstico do que indo e pregando.

É esse o ministério integral que queremos? Gostamos de nossas igrejas como feudos familiares e de agregados? Ou queremos igrejas realmente neotestamentárias?

Demos pensar nessas coisas, mas alerto que há também pastores que se dedicam realmente em tempo integral ao ministério e a igreja sequer o sustenta, mesmo podendo. Conheço caso em que ímpios sustentavam um pastor de tempo integral enquanto a igreja o enfrentava. Pastores como esses, são dignos de honra. Escolhem o ministério integral e realmente o abraçam independente de tudo, mesmo com sacrifício pessoal até.

Se desejamos pastores em tempo integral, que seja integral para a igreja local e não em atividades pessoais para-igreja, excluem-se obviamente as atividades para eclesiásticas das quais a igreja faça parte como associada. Se desejamos pastores bi vocacionados, que sejam vários em uma congregação para que a igreja não sofra. Não nos preocupemos se faltarão pastores ou seminaristas pois não faltarão, são aqueles que fazem das igrejas seus feudos que dizem que não há atividade para todos, pois a igreja é seu mercado.

Nem todos são missionários, por diferentes questões, inclusive de chamado, mas não é raro ouvir a desculpa de feudalistas dizendo mais ou menos isso: "Não deseje a MINHA igreja. Vá para missões". Para estes a igreja deixou de ser um espaço de comungar vocações e dons para ser território presidencial.

Que Deus nos abençoe, e que Ele traga ao entendimento de cada um, de forma perfeita, aquilo que não consegui expressar com clareza, mas de boa vontade, para que nossas igrejas venham a ser de todos e não de alguns.