03/09/2011

Tradução Literal da Bíblia


No meu estudo solitário do grego através das traduções que proponho aqui como forma de aprendizagem procurei diversos livros sobre tradução bíblica. Para alguns há a preferencia pela tradução do significado, outros preferem buscar a literalidade. A Nova tradução na linguagem de hoje é uma dessas traduções por significado e a Tradução Brasileira ou Fiel busca mais a literalidade.

Prefiro a literalidade por motivos que julgo importantes, entre eles o de que não se pode alterar as Escrituras, portanto, mesmo que a tradução exatamente literal seja impossível devido a diferenças de linguagem prefiro-a por alterar menos o texto sagrado.

Outro motivo é a natureza das Escrituras, elas são não um texto sagrado, mas O Texto Sagrado. Não se deveria, em minha concepção leiga, aplicar os mesmos princípios de tradução de um romance ou texto secular às escrituras. É histórico o zelo na preservação das Escrituras, mesmo nas traduções, e por isso não se encontram erros comprometedores nos textos que nos chegaram até hoje, mesmo a vulgata latina não era tão vulgar (no sentido raso de comum) assim.

Pode-se dizer também que a Bíblia não é um livro moderno, portanto não se deve traduzi-la como um livro hodierno. No sentido primordial a Bíblia é um livro arcaico e com isso possui palavra em desuso, porém com significado preciso que podem ou não encontrar equivalente em português. Ainda como contraponto a língua portuguesa que falamos hoje sofreu diversas influencias comerciais chegando a uma excessiva simplificação em certos casos. Quando simplificamos, mesmo que nos refiramos ao significado de forma mais extensa perdemos a significância emotiva e racional da própria palavra. Porque nos impressionamos quando alguém fala bem? Não é por nossa ignorância somente, mas porque uma palavra bem colocada vale mais do que dez mal exploradas.

Ainda sobre a defesa de uma tradução literalizada podemos dizer que as línguas passam de um estado para outro, não decaem nem progridem, apenas mudam (FIORIN). A Bíblia foi escrita em línguas consolidadas, o grego koine é uma língua morta, o hebraico bíblico foi recentemente resgatado para formar o hebraico moderno que é algo diferente do primeiro. Isso nos mostra que não só o significado da Palavra de Deus, mas a forma de dizer deve ser preservada, e tal preservação foi providenciada pelo próprio Deus na história.

Um dos problemas das traduções por sentido, sob meu ponto de vista limitado é querer aculturar a tradução da Bíblia mudando símbolos como "neve" por "penas de garça" para indicar brancura em traduções para um povo específico. Atribuem decisões como essa a uma exegese do texto feita pelo tradutor. Exegese é a interpretação do texto bíblico seguindo as regras de interpretação bíblica (hermenêutica). Entretanto, quem garante que a exegese do tradutor por sentido é a melhor possível? Embora a tradução exija uma certa exegese para escolher a melhor palavra a interpretação da Bíblia é função pastoral, para isso mandamos pastores para o seminário. No caso da neve e das penas de garça está implícito não só a brancura, mas também a pureza da água vinda de geleiras. Qual é a pureza das penas da garça mesmo numa questão de significado, onde a água pura tem valor importante na simbologia bíblica?

As traduções por significado também usam expressões idiomáticas da língua para qual se traduz para traduzir expressões idiomáticas do grego e do hebraico. Mais uma vez caímos na dinâmica da língua. Quem garante que a expressão idiomática "carioca" usada pelo tradutor com base em sentidos é melhor que a expressão "baiana" ou "gaúcha"? E por quanto tempo essas expressões sobreviverão mantendo o sentido? É bem provável que alguém, em poucos anos, ao ler uma versão baseada no sentido que o tradutor achou por bem passar entenda outra coisa diferente pela própria mudança de significância no idioma. Portanto, traduzir por significado não é garantia nenhuma de uma boa tradução.

Prefiro, no meu pouco entendimento, uma tradução mais literal e até mesmo arcaica em certas palavras mais precisas, pois conduz a uma maior segurança na preservação do sentido original do texto mesmo que a leitura seja mais difícil. Imagine alguém que pegue várias versões por sentido da Bíblia em diferentes idiomas num futuro próximo, sem ser um tradutor formado. Provavelmente esta pessoa pensará que a Bíblia é uma criação humana sem sentido , ou talvez, que cada um dá o sentido que quiser como querem os teólogos liberais.

A versão literal é mais preservadora do sentido do que a tradução por sentido, pois uma pode resistir ao tempo quando verificamos o que sabemos fugir de nosso entendimento por ser um uso mais culto da linguagem, ao passo que o uso comum e corriqueiro pode ir ganhando sentidos corriqueiros e contrários ao ensino. Aliás é até interessante que permaneça a tradução segundo  o contexto original para que se preserve o que foi dito aos autores, em sua época, para que fundamentados no significado original façamos aplicações para hoje. Fazer aplicação do significado de um texto não é tarefa de tradutor mas da igreja, portanto são preocupantes traduções por sentido que muitas vezes já trazem em si uma aplicação pré-concebida.

Façamos um apelo aos tradutores: Deixem a exegese final do texto por conta de pastores e teólogos que estão junto da igreja e são mais capacitados para ensinar em comunhão, fixem-se na preservação do sentido e não da simplificação do entendimento do sentido, pois o entendimento simplificado é mutável e inconstante ao passo que o sentido preservado é característica fundamental do sagrado. E a Bíblia é Sagrada.



BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada. Tradução Brasileira. São Paulo: SBB, 2010.

Biblia Sagrada. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. São Paulo: SBB.

BARNWELL, Katharine. Tradução Bíblica: um curso introdutório aos princípios básicos de tradução. São Paulo: SBB, 2011.



WEBGRAFIA

"WHAT IS IN A NAME?" disponivel em http://www.pontoparagrapho.com.br/texto.aspx acesso 03/09/2011

FIORIN, . A internet vai acabar com a língua portuguesa? Disponível em http://www.letras.ufmg.br/arquivos/matte/ievidosol/Fiorin.pdf acesso 03/09/2011