02/01/2011

Apostasia e autoritarismo

Há alguns anos que pela insistência de amigos e familiares levei uma pessoa cega da família para uma "Concentração de Fé" de um desses milagreiros picaretas da mídia. Tentei demover as pessoas de tal idéia mas, sem sucesso, acabei tendo que acompanha-las pela proximidade afetiva.

Ao chegar lá procurei um lugar alternativo, atrás do palco, esse é o termo correto. Havia milhares de pessoas acotoveladas sob um sol escaldante, pessoas de muleta e cadeirantes avizinhavam-se do palco esperando a oração milagrosa que era constantemente anunciada mas sempre adiada. Vi até um homem idoso trazido sob um colchão como se pretendessem uma releitura de fato bíblico bem conhecido.

A certa altura anunciaram "Uma criança morreu!" O vigarista mandou que todos orassem com fé que a criança ressuscitaria. Começou uma oração barulhenta. De onde eu estava pude ver quando a criança, durante a oração, era abanada com força por um obreiro. Era evidente que a criança desmaiou com o calor. Quando pode sentar no colo do pastor houve um alvoroço "A criança ressuscitou!". É obvio que naquela confusão do transe coletivo ninguém podia perceber nada claramente.

A pessoa cega de minha família foi com outros para um lugar onde havia "mais unção", fiquei onde estava observando. Depois de muitas ofertas a cerca de 5 minutos do final do culto resolveram orar por bênçãos e pela cura dos paralíticos e enfermos. Mas o pastor deixou bem claro "Quando eu acabar de orar vocês devem ir imediatamente para suas casas, se desobedecerem perderão a bênção!" Ele orou e alguns que estavam em cadeiras de rodas e com muletas esforçaram-se para ficar de pé mesmo que cambaleantes, e logo ouvi outro grito "Os paralíticos foram curados! Agora vão para casa imediatamente para não perder a bênção!"

O povo, obediente ao homem, se foi. Eu, obediente a Deus, fiquei para verificar a cura dos paralíticos e da pessoa cega que levei. Aos poucos os paralíticos, antes "curados", começaram a cair e a buscar, arrastando-se, sem ajuda nenhuma, suas muletas e cadeiras de rodas. Meus familiares chegaram também frustrados pois não houve cura.

Este homem, como muitos que buscam autoridade sobre os outros, manipulou o povo com promessas e ameaças. Tais pessoas lucram não só nos cultos, mas constroem empresas para seu império. Gravadoras, editoras, produtoras e tudo mais que possa vender produtos de seus líderes com "muita autoridade".

Fiquei triste hoje ao ver manifestação semelhante vinda de um pastor batista. Aliás, renomado por combater tais práticas manipuladoras. "Sentem-se aqui na frente", disse ele, "quem não fizer isso é desobediente e rebelde", é óbvio que não obedeci a uma ordem desse tipo. Você pode imaginar porque vendo o histórico do outro sujeito acima.

As igrejas batistas estão se esfacelando doutrinariamente pois não há diálogo. Alguns pastores pensam que são "otoridade mauxima" na igreja, e dirigem-se a ela de forma desrespeitosa, alterando até o volume e a entonação da voz. Estamos seguindo pelo mesmo caminho dos neopentecostais somente com uma capa doutrinária que serve para dar autoridade a alguns e não para refletir sobre o que Deus quer de nós.

Com certeza Deus não quer nenhum mandão na igreja. Todo poder é dado a Cristo. Se somos mordomos de alguma autoridade ela nos foi dada por Deus, portanto, devemos nos dirigir aos nossos conservos como bons mordomos e não com autoritarismo desrespeitoso. Já existem igrejas batistas que toleraram tal desrespeito e hoje são verdadeiros circos de alguns grupos de interesse. Que Deus nos dê sabedoria para saber falar, saber ouvir, e saber exercer a mordomia com respeito àqueles que são como nós, afinal cada um é sacerdote de si mesmo perante Deus.