10/10/2010

Doutrina é importante?

Há religiosos que são contra o termo doutrina, chegando até a demonizar o termo, como se fosse algo mal e que não pertencesse ao âmbito do verdadeiro cristianismo. Isto é um erro inconsistente quando vemos uma definição de doutrina como

“O termo doutrina pode ser definido como o conjunto de princípios que servem de base a um sistema religioso, político, filosófico, militar, pedagógico, entre outros.” 1

Ora se a doutrina serve de base a um sistema, no nosso caso religioso, se a desvalorizamos mesmo que inconscientemente pelo mal uso do termo abalamos a base de nossa fé. Acrescento que doutrina também não é um ensino qualquer, pois a ideia de ensino é muito ampla, ultrapassando e permeando sistemas totalmente diferentes e até incoerentes entre si. Podemos entender daí que toda Doutrina é ensino, mas Nem Todo Ensino é doutrina, pois se o ensino está fora da base da fé nunca será doutrina de fé. Exemplificando: usar paletó e gravata é um aprendizado social e cultural, mas não é doutrina por não constituir elemento basilar de pensamento religioso cristão.

A doutrina refere-se a sistemas específicos estabelecendo a base de pensamento (não a base espiritual em si, que é Cristo) para a construção de considerações coerentes sobre a fé. Jamais poderíamos deduzir que 2+2 é igual a 4, se não soubessemos no mínimo, enumerar, sequenciar, e considerar quantidades. Quando dizemos que 2+2=4, falamos tão automaticamente que até esquecemos as bases do Jardim de Infância. Claro que a doutrina bíblica, no nosso caso batista, é algo mais elaborado mas que obedece o mesmo conceito.

Considerar a fé ignorando a doutrina é um tipo de pregação amplamente divulgado por pessoas contrárias à fé e que, infelizmente tem sido também adotada por cristãos, mesmo que sinceros, a partir de uma reflexão muito subjetiva e superficial sobre o assunto. Vamos considerar portanto, de onde surgiu a tendência a descaracterização da doutrina como foco necessário à identidade religiosa.

Precisamos retomar alguns milênios, desde os gregos, quando numa democracia de manipulação da vontade popular pela oratória, para se conseguir poder político e riquezas, as classes dominantes pagavam a professores chamados sofistas, que ensinavam a melhor forma de convencer a multidão num discurso, eles eram especialistas nisso e cobravam caro pelas aulas, afinal muito dinheiro estava em jogo na habilidade de manipular multidões (qualquer semelhança com marketeiros políticos não é mera coincidência). Sob essa realidade, é obvio que a verdade não interessava, mas apenas um discurso convincente mesmo que falso era suficiente, e a única coisa desejável.

A democracia grega, era alimentada pela falsidade dos sofistas, a falsidade era algo desejado como valioso objeto de consumo. Nada era real, tudo relativo, sem identidade, mutável conforme cada interesse ou entendimento. Não foi a toa que o filósofo grego Sócrates, por levantar o problema da verdade – possivelmente oriundo de contato com o monoteísmo judaico – foi condenado a beber cicuta, um veneno produzido de planta comum no Mediterrâneo. A mera defesa da verdade através do método socrático que fazia com que as pessoas reconhececem a falsidade de seus argumentos, era uma grande ameaça para os falsários da oratória, mesmo que talvez por prudência Sócrates não mostrasse a verdade, ela estava implicita e era uma ameaça ao sistema político instituído.

Com a pregação do Cristianismo no ocidente passa-se a considerar de forma mais abrangente o valor da Verdade, pois Deus (Jesus) é a Verdade Única, que não dá base para falsificação sendo que nossa sociedade ocidental foi construida pela ideia de civilização grega, conhecida como paidéia, mas transformada da falsificação conveniente para a verdade absoluta. Isso durou muito tempo e atingiu todas as formas de conhecimento, mas não agradou muita gente. Se existe o Deus que é a Verdade, logo, Ele compartilha a verdade conosco de forma moral e existencial.

Os primeiros cristãos já tinham noção do valor da doutrina, que foi ensinada e registrada pelos apóstolos no Novo Testamento. Não podemos dizer que a única doutrina básica é o amor ao próximo, pois amar é mais do que uma base de pensamento, é um mandamento. Lendo as cartas apostólicas vemos que há doutrinas que seguem o mandamento do amor mas que não o compreendem em si. Por exemplo: a doutrina da Trindade, embora não denominada, está presente nas escrituras e não pode jamais ser rejeitada por um cristão fiel à Palavra de Deus, mesmo que não esteja atrelada ao discurso do amor em si, ao rejeitar a doutrina como conceito mais elementar, rejeitamos doutrinas como a da Trindade, e isso não interessa a cristãos fiéis.

Dando um salto no tempo vamos para um período chamado Renascimento onde busca-se uma restauração de valores gregos humanistas, isto é, coloca-se o homem como centro de tudo e não Deus. Havia descontentamento com a igreja, especialmente citamos os banqueiros e mercadores, e esse foi o princípio da reciclagem do livre pensamento no sentido de ser falsificado, que culminou no Iluminismo (sem mencionar a Reforma) porém sem ainda defenderem a falsidade escancaradamente. Mais tarde, o surgimento de pensadores comunistas coincidiu com a defesa da falsidade e com o exercício de métodos de retórica voltados para a manipulação ao que se dá o nome de erística. Posteriormente outros pensadores mundanos seguiram o mesmo caminho buscando uma “desconstrução” da verdade, o que nos lembra muito o trabalho do Diabo que veio “desconstruir” que é só uma palavra mais bonita para destruir.

Com o surgimento da tendência de globalização dos mercados, filosofias que buscam a falsidade tornaram-se novamente atraentes, pois como elas não possuem, nem querem possuir, base para construção de conhecimento, são muito úteis para fazer com que todo mundo “se entenda” evitando discussões conceituais quanto a natureza falsa ou verdadeira das coisas. Isso ajuda a vender fácil qualquer produto, inclusive almas humanas.

Nós não queremos vender almas, mas levá-las a Deus, não queremos também exercer domínio sobre o outro mas mostrar-lhes o caminho da liberdade, por isso a Verdade nos é tão importante. Por isso precisamos de doutrina.

Mesmo que as coisas não se comportem de forma sistematicamente rotineira, ainda assim possuem um sistema. A fé em Cristo tem sua doutrina, seu sistema de pensamento básico, os adeptos da falsidade odeiam a existência de doutrina. Mas infelizmente, até alguns pastores tem sido encantados pela ideia da relativização, da subjetivização do cristianismo e, é claro que as situações de poder que citei acima tem muito haver com a posição deles, seja de forma obstinada ou até como vítimas inocentes de uma forma de pensamento que privilegia a falsidade e não a verdade em Cristo.

Valorizemos nossas doutrinas, pois são a base de pensamento para nós meros humanos finitos, sobre o plano, os mandamentos, as orientações morais que estão presentes em toda a Bíblia de forma bem objetiva, que evita o exercício de pensamento religioso irresponsável.

É a doutrina da evangelização que nos mantém motivados a pregar a Palavra de Deus. São todas as doutrinas batistas juntas, que nos dão identidade, e fazem de nós alguém em que se pode verificar se o pensamento religioso é verdadeiro ou falso.

A ausência de identidade é característica da falsidade, a doutrina traz identidade, por isso é fundamental valoriza-la como instrumento de pensamento sobre a Verdade que é Cristo. Afinal, o Diabo sabe que atacando alguém nas bases de sua fé, ele poderá derrubar esta pessoa com muito mais facilidade, gerando um grande estrago, mesmo que seja um salvo.