07/09/2008

Só se esquece o que não se valoriza

Um site que diz militar nas causas cristãs publicou uma postagem pelo menos contraditória, dizendo: "A Bíblia que se esquece é a que vale". O autor, que talvez nem seja o dono do blog, tece seu ponto de vista baseado no costume dos evangélicos de memorizarem versículos, defendendo que não é necessário memorizá-los para ter uma experiência com Deus verdadeira. Até certo ponto concordo com a idéia, pois eu mesmo e muitos dos melhores teólogos que conheço, nos quais não me incluo, não conseguem memorizar nem o endereço de João 3.16. Penso que é mais importante entender o que o texto quer dizer,e viver seu ensino em todos os momentos da vida, quando o entedemos nos apropriamos dele de fato e o assimilamos em nosso coração, guardando-o no lugar mais importante de nosso ser – sem esquecê-lo como princípio, embora possamos esquecer endereços – a simples memorização é apenas um recurso mnemônico que pode até ser útil, mas não imprescindível em nossos dias, mas que foi imprescindível durante a chamada "Guerra Fria" - onde o partido comunista proibia a leitura da Bíblia, queimava-as e mandava para campos de concentração ou matava logo seus possuidores – os crentes perseguidos nesse período costumavam desmembrar as páginas de uma Bíblia só, que era objeto raro, ficando cada crente com poucos capítulos os quais decoraria para recitá-los nas reuniões clandestinas da igreja perseguida que não podia carregar nem ler Bíblias publicamente, sob risco de vida. O que dizer também da utilidade que isso teve para vários analfabetos durante a história, que recorrendo primeiro à memorização, posteriormente tomaram gosto e aprenderam a ler a Bíblia Sagrada ou qualquer outro livro. Desvalorizar radicalmente a memorização da Bíblia é desconhecimento da história do cristianismo e uma imprudência pois a própria Bíblia diz em Salmos 119.11 "Escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti."  O termo referente a esconder uma coisa no coração significa coloca-la em lugar muito importante em sua vida que tenha total predominância e que não possa ser roubada por ninguém. Quem souber pouco hebraico poderá ver que é assim nos originais. Se alguém pensa fazer isso da melhor maneira através da memorização, quem somos nós para criticar?

Quanto a dizer que "o que se esquece é o que vale" referindo-se a automaticidade em dirigir um automóvel, ou ao fato de não lembrarmos de uma parte do corpo se não sentimos dor nela, ou mesmo a uma sexualidade expontânea, ou ainda a uma leitura ou cálculo que são feitos sem refletir em seu mecanismo de execução, não são argumentos válidos, diria até que são paupérrimos.
Quem contrataria um motorista que não renovasse sua carteira e relembrasse as práticas de direção regularmente? Quem é que não pode ficar doente, ou até morrer, ao ignorar seu corpo e não cuidar dele até o ponto da dor? Ou que sexualidade pode ser sadia se não for feita com reflexão, por puro impulso egoísta que leva a decepções emocionais e a possíveis DSTs? Que leitura ou cálculo é feito sem reflexão ou sem memorização? Qual reflexão ou interpretação é feita sem um conjunto de informações internalizadas, muitas vezes por repetição, das quais nem nos damos conta? Dar a interpretação de signos gráficos e aplicação da tabuada como exemplos para rebater a prática da memorização é uma incoerência de raciocínio.
Portanto, por mais que as novas idéias, modernistas ou modernosas, tragam novas reflexões sobre a forma de aprender algo e viver esse aprendizado, não podemos simplesmente descartar o que se fez para colocar outra coisa no lugar. É como inventar uma nova camisa para time de futebol e jogar a trave do goleiro fora devido à invenção, é ridículo. O verdadeiro cristão não é seduzido por filosofias mal enjambradas e que seduzem somente os tolos, o verdadeiro cristão sabe escolher o que é melhor para si, mesmo que alguém não concorde ou julgue inútil e ultrapassado. Portanto, mesmo que eu não seja adepto da memorização automatizante, use-a se você se sentir bem com isso porque quando temos a Bíblia em nosso coração somos como o bom e competente motorista que conhece toda a prática com maestria mas conhece também as regras legais do bom trafegar pelas estradas da vida. Trafeguemos por este mundo sem esquecer que a Bíblia nos leva para o céu.
 
Se quiser conferir a tal postagem ela está em http://pavablog.blogspot.com/2008/09/bbia-que-se-esquece-que-vale.html