22/09/2008

Como contamos a história de Cristo?

Foto:Wong Mei Teng

Lucas 1 – 1  Visto que muitos têm empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, 2  segundo no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, 3  também a mim, depois de haver investido tudo cuidadosamente desde o começo, pareceu-me bem, ó excelentíssimo Teófilo, escrever-te uma narração em ordem 4  para que conheças plenamente a verdade das coisas em que foste instruído.

 

Gostaria de analisar com você o texto acima sobre três pontos que me chamaram a atenção nesse prefácio de Lucas: O objetivo de Lucas, a estratégia de Lucas, e o método utilizado pelo evangelista.

Objetivo de Lucas – contribuir para que o leitor conheça plenamente a verdade do Evangelho. É interessante notar que no tempo de Lucas já havia quem distorcesse os fatos pregando um falso evangelho, cheio de fábulas, que não levava a conhecimento nenhum da Palavra de Deus, mas à presunção espiritual, mas a igreja primitiva soube, a dura pena, filtrar tais fábulas e construir sobre o alicerce da genuína fé em Cristo. Hoje há quem diga pregar o verdadeiro evangelho, nós batistas estamos entre os que procuram isso, mas há muitos enganadores que pregam a si mesmos e para encher seus próprios ventres. Há o perigo do preconceito pela generalização, pois se alguém que se diz evangélico distorce tão absurdamente a Palavra, os não cristãos tacharão os demais num pacote só por conveniência, mas não devemos fazer como tais que fazem marchas contra o preconceito, pois preconceitos são inerentes ao ser humano e sempre existirão por maior que seja nosso esforce em não tê-los, ou negar que os temos. Tal negação já é hipocrisia e manobra ideológica para calar aqueles que discordam de idéias padronizadas para ser aceitas pela maioria. Lucas não se preocupa em rechaçar o falsos doutores em seu livro, pois para ele era mais importante que cada um refletisse sobre a vida cristã e exercitasse a tolerância e amor cristão fundamentado numa base sólida e não em ideologias facciosas. Quantos pregadores você conhece que tem buscado reflexão consciente e responsável ao transmitir a Palavra de Deus? Infelizmente eu tenho percebido que seu número tem diminuído em relação aos falsos mestres. É melhor ter o objetivo de Lucas levando pessoas a conhecer plenamente a verdade de Cristo na Bíblia Sagrada do que distorcer, fracionar, fragmentar e de forma descontextualizada com sua época de escrituração pois o sentido que a Bíblia tinha para os contemporâneos dos autores sacros deve ter para nós hoje, resguardados os devidos abismos culturais, temporais, geográficos etc.

Método de Lucas – Buscou as melhores testemunhas e ministros que acompanharam os fatos desde o início. Usou todo o cuidado na narração de seu evangelho. Nem sempre temos o cuidado de Lucas, embora até desejemos isso. Alguns nem se preocupam com esse cuidado pois o que importa mesmo é sua suposta “unção” que pode ser entendida como “pres-unção” por que não buscam, não se dão ao trabalho de entender o que Deus quer falar mas o que achamos que Deus quer falar de acordo com conveniências pessoais. Fujamos disso e procuremos os verdadeiros mestres, que nem sempre parecem tão “ungidos” ou poderosos mas que trazem a mensagem de Salvação genuína.

Estratégia de Lucas – ordenar os fatos para que eles pudessem fazer sentido aos leitores, mesmo que cada lição de Jesus fosse um universo em si. Ao ordenar a narração os evangelistas facilitavam a memorização dos ensinamentos que eram apresentados em forma histórica. Era muito comum que se contassem histórias nos tempos antigos como forma de aprendizagem e perpetuação dos valores sociais, culturais e religiosos. Ao escolher a narrativa, Lucas escolhia uma forma literária familiar ao povo, porém diferenciada das narrativas dos deuses estranhos, pois entre os gentios era comum atribuir-se histórias sem fundamentação ou sequer alguma investigação, sobre os alegados “feitos” de suas divindades, os gregos faziam muito isso em sua mitologia, era um tipo de legado de histórias que justificavam os princípios culturais e do jogo de poder da sociedade da época. O cristianismo veio como uma alternativa, ou como uma oposição a essa manipulação dos fiéis por metas sociais instituídas por alguém que se julgasse iluminado, o único que tinha autoridade era Cristo e ele era uma pessoa real que poderia ser investigada, contestada e validada pelo zelo na pesquisa o que era impossível com os deuses criados pelos homens. Quando lemos a história da igreja primitiva (que não é a igreja católica) podemos observar uma “contra cultura” à vida pecaminosa ou à hipocrisia institucionalizada, por isso as igrejas devem ser, como eram primitivamente, independentes entre si ligadas apenas pelo laço do amor e fraternidade cristã. Mas alguém poderia dizer que a história da igreja está repleta de fatos contestáveis, e de fato está, mas tal ocorrência se deu quando o império romano institucionalizou a igreja hierarquizando-a e tornando-a estatal para atender ao império militar romano que pretendia ser universal (católico). A um império universal era politicamente útil uma religião fortemente controlada e controladora para troca de influencia, daí surgiram os problemas que conhecemos. Ao contrário do que dizem a igreja católica não foi “a primeira igreja”, a igreja primitiva era descentralizada e sem compromisso com o jogo de poder do império, penso que uma igreja coerente deve buscar tais valores, pois a clericalização nos obriga a mascarar os fatos bíblicos com interpretações parciais e omissões enganosas para manter o status da liderança.  Cito outra igreja nas linhas acima, mas entre nós batistas há quem se curve à sedução da universalização e hierarquização da igreja contrariando os princípios e doutrinas que não vieram por decreto, mas por reflexão e vivência em uma história de perseguição e luta pelo direito de viver como cristãos fiéis à Bíblia e não à instituições iniciáticas. Devemos aprender muito com Lucas e não caindo nessa sedução mas apurando nosso conhecimento da Bíblia para que possamos crescer como corpo de Cristo e não como “corporação de Cristo”.