07/07/2008

Peito de lamaxúria defumado

Outro dia estava numa agradável recepção numa igreja quando me foi oferecido um sanduichinho que provei, gostei e expressei meu sentimento ao irmão que serviu: “Muito boa essa mortadela, irmão! Que marca é?” ele me olhou meio de lado e disse “isso não é mortadela! É peito de (sei-lá-o-que) defumado”, claro que me desculpei com ele dizendo que não conhecia aquele prato tão elegante, estou acostumado só com mortadela, pareceu-me que aceitou as desculpas e continuou servindo, mas quero falar aqui sobre linguagem. E o que mortadela tem haver com linguagem? Explicando: existem várias formas de linguagem, a gestual, a arte, a visual etc. Eu não falava a mesma linguagem culinária daquele irmão, por isso a gafe. Mas será que existe tanta diferença de linguagem na igreja? Claro! Existem até as chamadas “línguas estranhas” citadas na Carta aos Coríntios que na verdade seriam mais bem traduzidas por “idiomas estrangeiros”. Sou batista portanto tenho minha visão desse assunto baseada na doutrina do meu grupo, se você é pentecostal, com certeza discordará do que vou dizer aqui, portanto, se não consegue aceitar opiniões diferentes sem se ofender, aviso-lhe que abandone agora a leitura dessa postagem, caso contrário, queira esclarecimento, pode continuar.Vou dar apenas alguns exemplos e falar sobre a necessidade de interpretação pois o assunto é muito extenso para uma só postagem. Não voltarei tão cedo a discorrer sobre isso para evitar aqueles debates infrutíferos que grassam pelos fóruns evangélicos da Web. Comecemos com curiosidades sobre a Glossolalia (é esse o nome técnico desse fenômeno): - Não é exclusividade do cristianismo, existe em muitas religiões desde tempos remotos, inclusive na feitiçaria em suas diversas formas; - Os falantes geralmente usam palavras com sonoridade de seu próprio idioma. Já reparou que temos um padrão sonoro no português, o inglês tem outro e assim por diante? Pois bem os glossolalistas usam palavras aprendidas entre eles que podem ser facilmente identificadas e se resumem a meia dúzia de palavras articuladas de forma desconexa ou mal pronunciadas. Será que você já não ouviu algo como: lama, xúria, canta, anda, bala, saia, mala, suriquem, laia? São as construções mais comuns pelo menos na região do Estado do Rio de Janeiro. Para parecer falar em língua mística é necessário apenas impostar a voz e depois misturar esses elementos a gosto, veja: “OOOOhh, lamaxúriacantalamasaia!”, “Cantacantabalabalasuriquemalaia!” Ou a mais famosa e repetida “Lamaxúria Cantarianda!” Agora vamos à questão da interpretação. Nossos irmãos cristãos glossolalistas afirmam que a Bíblia apóia o falar em língua estranha, se houver intérprete, baseado no texto: “No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete”. 1 Coríntios 14:27 alegam como nós batistas que Paulo queria disciplinar o exercício dos dons, por isso a necessidade de um intérprete. Até aí tudo bem se não fosse a falta de entendimento sobre quem é o intérprete citado por Paulo. Intérprete? Quem é esse irmão? Temos um entendimento que a palavra intérprete se refere a tradutor, alguém que traduz um idioma para outros em tempo real, mas não é assim, na verdade esta pessoa é alguém que pode entender o idioma e analisar o que está sendo dito com profundidade, a interpretação não é algo rápido e em tempo real, pelo menos para o ser humano, é necessário investigação e reflexão para se fazer uma boa interpretação. É exatamente isso que fazemos quando interpretamos um texto, principalmente bíblico, ninguém de boa índole sairia conscientemente para pregar sem pelo menos meditar e orar durante horas ou dias, enquanto lê seu texto de base. Podemos entender então que quando há um texto ou uma fala de grande importância alguém que domine aquele idioma deverá fazê-lo com vagar, cuidado, reflexão e muita responsabilidade, e nunca afoitamente e aos gritos emocionados. Como dissemos, as línguas que Paulo cita referem-se a idiomas como aconteceu em Atos 2 onde pessoas de todos os lugares do mundo ouviam a mensagem de Deus em seu próprio idioma pregado por simples pescadores galileus. Portanto, as línguas foram úteis para falar diretamente aos homens de maneira humana e não são instrumentos místicos, aqueles que não entendiam e julgavam os apóstolos como bêbados provavelmente não tinham aberto o coração para a ação do Espírito Santo e por isso não podiam entender. Concluindo: no ensino bíblico quem deve entender, refletir, aceitar, aplicar a vida, enfim, interpretar, é o próprio ouvinte e não alguém que funcione como “ponto eletrônico” para a igreja. Cada um deve ser intérprete para si mesmo de forma consciente e sem viagens místicas, pois o mais importante no culto cristão é conhecer a Palavra e guarda-la em sua mente e coração com entendimento.