07/01/2007

A importância da Palavra

Quando eu era mais jovem, as pessoas que tinham alguma deficiência física ou mental eram chamadas de “excepcionais”, um nome até certo ponto simpático se pensarmos em um de seus significados: alguém fora da mediocridade, além da média. Mas com o passar do tempo, esse termo foi se depreciando e tornando-se pejorativo. Hoje, se você elogiar uma pessoa dizendo que ela é excepcional, provavelmente fará com ela se sinta ofendida. Hoje usa-se o termo “especial”, que era muito usado anteriormente para se referir a pessoas de muitas posses ou grande prestígio que mereciam uma atenção especial. Durante algum tempo o marketing usou com mais ênfase o termo “cliente especial” , mas depois da nova denominação dada a pessoas consideradas desfavorecidas, cunhou-se (ou copiou-se) um novo termo, o “Cliente VIP” (Very Important Personal – deve estar certo, meu inglês é horrível). Isso nos leva a pensar no seguinte: nós nomeamos as coisas pelo significado que elas tem para nós culturalmente. Não adianta mudar apenas o nome se o contexto cultural continua inalterado. Provavelmente, muitos que sugeriram ou defenderam a mudança de “excepcional” para “especial” preferem ser chamados de “cliente VIP”. Essa semântica cultural pode influir também na forma como entendemos a Bíblia. Você já leu João 1.1, em versões diferentes, e preferiu a versão que traduzia “logos” por “verbo” ao invés de “palavra” ? Eu já. “Verbo” me parecia bem mais apropriado e comecei a pensar porque disso, fazendo uma retrospectiva histórica. Afinal, ao buscar a pureza do texto bíblico devemos analisar todo o seu contexto para tentar chegar o mais perto possível da intenção do autor sagrado. Na cultura popular brasileira “usar a palavra” está associado pejorativamente a “conversinha” visando enganar o outro para tirar proveito pessoal, como os discursos dos maus políticos. Outro dado é que a formação de nosso povo tem o elemento negro que foi escravizado e tolhido de todo privilégio além de trabalhar duro de sol a sol, em conseqüência disso, durante gerações a conversa, o diálogo, era visto como perda de tempo, “coisa de quem não tem o que fazer” por algumas pessoas mais conservadoras do povo. Outros assumiam a atitude, saudável até certo ponto, de “jogar conversa fora” sem falar de nada que os comprometesse o que foi útil principalmente durante períodos de opressão como a ditadura militar, para exemplificar. É comum o brasileiro evitar um diálogo mais contundente de duas formas: - Concordando com tudo somente para não contrariar e arranjar um problema maior; - Afirmar que qualquer pensamento é válido mesmo que não resista a nenhuma comprovação; Essas estratégias para fugir ao diálogo levam a uma aceitação fácil pela sociedade, mas ao mesmo tempo, superficial. Talvez eu esteja sendo um pouco radical, mas o brasileiro conversa muito e dialoga pouquíssimo. Devido a esse componente cultural muito específico, que menospreza o termo “palavra” é que prefiro o a tradução que diz “verbo”. Mas por que “verbo”? Voltemos à história: Para o povo grego o homem livre deveria se ocupar de coisas mais elevadas do que trabalhos manuais, que eram reservados aos escravos. O cidadão grego modelo era aquele que dominava com perícia a oratória, que expunha sua idéia e conseguia convencer uma multidão. Haviam até professores especializados em ensinar a arte de convencer pela Palavra. Aliás, vale ressaltar que a maior conquista grega não foi a militar, foi cultural, pois os costumes gregos espalharam-se pelo mundo e prevaleceram e permaneceram além das conquistas militares. O próprio sistema democrático de governo, criado pelos gregos, exigia uma grande valorização da Palavra. A cultura grega foi o preparo ideal para que a mensagem de Jesus fosse pregada pelo mundo. Note a diferença, para o grego a “Palavra” era transformadora, criadora, sinal característico de um homem livre, e a melhor maneira de conduzir as decisões da vida, isto é, levar-nos à ação. Não fica mais claro isso quando traduzimos por “verbo” ? O “verbo” enfatiza ação transformadora e criadora que vem de Deus encarnada em Jesus Cristo como o autor sacro queria enfatizar. Você pode rebater que muitos brasileiros pensam dessa maneira, não podemos generalizar. É verdade, mas se você observar com mais cuidado esses brasileiros tiveram acesso à educação, que tem muitos componentes clássicos ou seja, gregos. Mas mesmo a influencia grega milenar não anula as vivências próprias de nosso povo. Mas, e daí? Nós, como Cristãos, recebemos a ordem de anunciar a Palavra de Deus ao mundo. Como portadores da palavra devemos maneja-la bem não só na sua forma escrita, mas na forma em que ela se manifesta em nossa vida. Muitas vezes falhamos em usar corretamente a palavra devido ao “ranço cultural” que herdamos. Temos dificuldades em dialogar, em interagir com o outro através da palavra, sendo por isso mais fácil impor radicalmente uma idéia ou fugir ao debate. Cursos de oratória, teologia, impostação de voz etc, podem até ajudar mas não resolvem totalmente e não são tão acessíveis. A Bíblia nos dá um caminho muito melhor, leia Provérbios 15.1, vejamos alguns ensinamentos para os portadores da palavra de Deus. Os portadores da Palavra de Deus devem: · Ter palavras brandas (Pr. 15.7) · Saber a hora de calar ou de falar (Pr. 15.21), · Ouvir bons conselhos mesmo que venha de quem menos esperamos ou consideramos (Pr. 15.22,31-32), · E Temer a Deus acima de tudo (Pr. 15.33). Conseguir tal façanha é difícil para todos nós, se fosse algo banal a bíblia não perderia tempo falando acerca disso. Parece óbvio, mas a possibilidade de não observar esses ensinamentos é imensa. Vamos nos esforçar para aprender a usar a palavra da maneira bíblica pois os resultados são muito desejáveis.